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travel blog

Sex | 28.09.18

Uma escala em Miami passada no Museu do Hambúrguer

Isto de fazer viagens não é fácil. Que o diga a minha cabeça, quando começou a pensar no que havia de fazer numa "escala" de quase oito horas em Miami.

entrada do Museu do Hambúrguer em Miami

Vamos por partes: para garantir o melhor preço até Nova Orleães, separámos a nossa viagem em duas partes. Primeiro, voámos de Lisboa a Miami e depois, independentemente, de Miami para Nova Orleães. Ora, isto significou que qualquer atraso no primeiro voo, ou na alfândega, ou na imigração, podia dar asneira - não tínhamos segurança nenhuma.

 

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Sem querer arriscar mais do que o necessário, decidimos que a melhor ideia era garantir que entre a chegada prevista a Miami e o voo para Nova Orleães passava... um montão de tempo, não há outra forma de o dizer. Iam ser sete horas e meia (mais uns pozinhos, porque o voo chega normalmente antes da hora marcada) para sair de um avião, passar por todos os controlos, fazer o que quiséssemos, voltar a passar na segurança e chegar a tempo para o embarque no segundo voo.

 

Isto tudo, claro, com uma viagem de oito horas, e cinco fusos horários de diferença, nas pernas. 

 

A primeira ideia era ir para o centro da cidade e ali passar umas duas ou três horas (dependia de quanto tempo demorássemos a chegar) a passear. Rapidamente foi descartada, porque tínhamos toda a nossa bagagem connosco - nós gostamos da coisa de não despachar malas, é verdade, e aproveitámos para fazer isso mesmo e pagar menos - e esperávamos muito calor. 

 

Logo depois, decidimos que íamos até ao Five Guys almoçar. Era um plano simples: ir até à zona de Wynwood, almoçar e voltar para trás. E estávamos (eu pelo menos estava) plenamente convictos que era o plano que íamos seguir. Só não contámos chegar a Miami sem fome e demasiado cansados para um viagem de autocarro que podia aproximar-se dos 50 minutos. Para cada lado.

 

Foi só no aeroporto que decidimos trocar os planos. Eu tinha lido, algures, um texto que falava sobre opções para escalas longas no aeroporto de Miami. Uma das sugestões parecia mesmo a nossa praia: um Museu do Hambúrguer, ali muito perto do aeroporto. Mencionei-o ao Rui e, pronto, estava decidido.

 

Malas às costas, bilhetes de autocarro comprados e, em menos de nada, estávamos no Magic City Casino, às voltas para encontrar o tal Museu. Não sabíamos o que esperar, e portanto também não sabíamos o que procurar. O que não faria mal se não estivéssemos a derreter no parque de estacionamento de um casino gigante. Valeu-nos, na verdade, o facto de ser tão grande que há um shuttle que anda às voltas a levar as pessoas dos carros até à porta do casino - deu-nos uma boleia até ao local onde demos com uma portinha, bastante disfarçada, de uma loja de gelados. Ao fundo, estava a entrada para o nosso museu.

O Wendy's é uma das cadeias representadas no museu

O Burger Beast Museum é do tamanho de uma grande sala, não mais do que isso. Alberga a coleção do "food blogger" Burger Beast, que se tornou obcecado com artefactos relacionados com hamburguerias e outras cadeias de fast food depois de ter recebido uma placa do extinto Burger Chef. Depois de anos a colecionar e manter as coisas em casa dos pais e no escritório, recebeu um convite para expor a coleção no Magic City Casino - e assim chegámos ao museu que temos hoje, e que juntamente com a Wall’s Old Fashioned Ice Cream Shop, contém mais de 3000 objetos.

 

Para nós, muitas cadeias e restaurantes mencionados no museu são desconhecidos. Sim, conhecemos o McDonalds, o Burger King e o Arby's, mas nunca ouvimos falar do Burger Castle, por exemplo, que até tem uma relação com o White Castle (e aí o Rui lembra-se do pior filme que viu na vida, que é precisamente sobre a aventura de dois amigos à procura de um hambúrguer de madrugada). O que não nos impede de ficar com muita vontade de conhecer todos aqueles sítios - e de comer àqueles preços, já que muitos dos artefactos mostram menus com décadas de vida.

Menu presente no museu

A entrada (10 dólares *mais* impostos, lembrem-se desse pormenor) vale os minutos passados lá dentro a descobrir as relíquias de um mundo que, apesar de familiar, está muito distante de nós. E a conversa com um dos amigos do dono, que está "a dar uma mãozinha", que nos fala do amigo português que tem uma empresa de turismo sustentável (chama-se João, mas experimentem lá perceber um americano a dizer esse nome) e nos diz quais os seus hambúrgueres preferidos. "Em termos de cadeias de fast food, acho que o meu preferido é mesmo o Wendy's. E aquela história de não congelarem a carne, que eu sempre achei que fosse marketing... é mesmo verdade e faz diferença."

 

Apropriadamente, há um do outro lado da estrada. E depois da fome crescente com que ficamos ao passear pelo museu, é mesmo lá que vamos parar. É que o hambúrguer é mesmo bom.

Qua | 26.09.18

Dez dias no sul dos Estados Unidos como solução de recurso

Oak Alley Plantation

Em 2017 viajámos duas vezes até aos Estados Unidos: fizemos o California Zephyr – comboio que liga Chicago a Emeryville (San Francisco) – e ficámos apaixonados pela ideia de percorrer as linhas ferroviárias do país - e fomos ver um jogo da minha equipa da NFL (New England Patriots).

 

(Also available in English)

 

Para 2018, tínhamos pensado fazer uma mistura das duas: ver um jogo da equipa da Sarah (Green Bay Packers, do Wisconsin) e voltar a atravessar o país a partir de Chicago, mas desta vez até ao sul, até Nova Orleães, com o City of New Orleans.

 

Tínhamos a viagem pensada, com direito a uma paragem em Memphis para visitar a varanda do hotel em que Martin Luther King foi assassinado, no cinquentenário da sua morte, orçamentos feitos e tudo definido com apenas uma coisa em suspenso: o calendário da temporada. Green Bay é uma cidade fria e não queríamos adiar muito a viagem. Nada correu bem: os Packers iam começar a época com dois jogos consecutivos em casa e o preço dos bilhetes representava um esforço que, para já, não valia a pena.

 

Fomos à procura de um plano B. Havia muitas opções à vista, com múltiplas combinações entre cidades, mas a escolha tornou-se cada vez mais clara: mantínhamos Nova Orleães e juntávamos Atlanta, ali «tão perto». Resistimos a abdicar de Memphis mas quando percebemos que a forma mais económica de fazer a viagem implicava chegar aos Estados Unidos via Miami, soubemos que teria de ficar para outra viagem.

 

O novo plano de viagem começou a desenhar-se sozinho. A primeira tentação foi ir ver preços, horários e duração das viagens dos autocarros da Megabus (que já nos foram tão úteis no passado), mas não havia ligações diretas a Miami e preferimos o avião a perder tempo desnecessário.

 

Feitas as contas, ia haver cinco voos: Lisboa-Miami, Miami-Nova Orleães, Nova Orleães-Atlanta, Atlanta-Miami e Miami-Lisboa. Na primeira passagem por Miami, tendo em conta as esperas sempre imprevisíveis para passar na segurança, optámos por uma escala mais prolongada que nos permitisse uma ida rápida à cidade durante a tarde.

 

Depois disso, eram quatro dias em Nova Orleãestrês em Atlanta e dois em Miami Beach, para descansar das próprias férias (temos sempre uma grande tendência para andar em vez de andar de transportes públicos e terminámos estes dias com mais de 90 quilómetros nas pernas) antes do regresso a Portugal.

 

Decidimos automaticamente que íamos mesmo ver um jogo da NFL, em Nova Orleães, e que íamos visitar o estádio mais recente da MLB, em Atlanta. Mantivemos em aberto a opção de ir ver um jogo de basebol também em Miami (a fraca qualidade das equipas não era um grande cartão visita) e começámos a definir prioridades em cada uma das cidades: visitar uma antiga plantação e o fantástico museu da II Guerra Mundial em Nova Orleães, a casa onde nasceu Martin Luther King Jr., o Olympic Park e um «circuito dos museus» (College Football Hall of Fame, World of Coca-Cola e o Center for Civil and Human Rights) em Atlanta.

 

O calor foi o único verdadeiro problema. Insuportável em Nova Orleães, sobretudo por causa da humidade, e difícil de aguentar em Atlanta, fez-nos pensar que talvez tivesse sido melhor adiar a viagem por mais um mês ou dois. Continuou a valer a pena mas tornou mais difícil visitar cada canto de cada cidade como mais gostamos: passo a passo. 

 

Voos (por pessoa)

Lisboa - Miami, ida e volta: 540 euros (TAP)

Miami - Nova Orleães: 77.66 euros (American Airlines)

Nova Orleães - Atlanta: 53.68 euros (Delta)

Atlanta - Miami: 91.05 euros (Delta)

 

Alojamento (por noite, para duas pessoas)

Nova Orleães: 95 euros

Atlanta: 93 euros

Miami Beach: 118 euros

Seg | 24.09.18

O voleibol foi a surpresa inesperada de Bucareste

 

Visitar Bucareste em fevereiro é uma aventura que pode não estar ao alcance dos mais friorentos. Mas nós, que inaugurámos as viagens juntos com uma Paris coberta de neve e com temperaturas negativas em janeiro, estamos habituados.

 

Estamos mais velhos e, talvez, mais vulneráveis ao frio. A coragem pode já não ser a mesma e a fatura no final do dia pode ser maior, mas não vai ser isso a desmotivar-nos se a viagem certa pelo preço certo surgir no… momento certo.

 

(Also available in English)

 

A primeira coisa que fiz quando decidimos marcar a viagem foi ir ver se alguma das equipas mais famosas de futebol em Bucareste jogava em casa. Com o Steaua e o Dínamo não tive sorte, mas o Rapid tinha um encontro marcado para o final da tarde. Mas o estádio era longe, não tinha sequer uma bancada coberta e, como já aprendemos no passado, é nestas situações que o frio mais se sente.

 Parlamento de Bucareste é um dos edifícios mais imponentes da Europa de leste

Tentei, sem muita pressão, convencer a Sarah mas percebi que era uma luta para a qual nem eu estava preparado. Pensei que iria ser uma viagem sem parte desportiva mas foi nessa altura, a jantar num hotel com vista para o imponente Parlamento, que fomos surpreendidos por uma equipa.

 

«Eles são mesmo muito altos. Têm corpo de jogadores de voleibol», disse a Sarah. Ali, enquanto comíamos, decidimos vestir a boina de Sherlock Holmes e perceber exatamente quem tínhamos à nossa volta. Confirmámos que eram jogadores de voleibol do Arcada Galati e, após uma teimosa pesquisa no telemóvel, chegámos à conclusão que iam jogar com o CSA Steaua Bucareste no dia a seguir… praticamente à mesma hora do jogo de futebol a que tinha pensado assistir.

CSA Steaua Bucareste vs. Arcada Galati

Descobrir exatamente onde era o jogo – o clube pertence ao Ministério da Defesa da Roménia e tem instalações espalhadas pela cidade – foi, ainda assim, o maior obstáculo mas, chegada a hora do jogo, lá estávamos nós.

 

Sem precisar de pagar bilhetes, apesar de um bem-disposto dirigente nos ter dito que precisávamos de desembolsar 50 euros para ir à casa de banho, assistimos ao duelo que tinha a liderança do campeonato em disputa. Silenciosamente, torcemos pelos nossos vizinhos de hotel e pelo brasileiro que tinham no plantel – apesar de durante muito tempo pensarmos que era outro jogador.

 

Perderam. E eles, tal como nós, tiveram de atravessar a noite de Bucareste para regressar ao hotel. Chegámos ao mesmo tempo mas houve uma diferença. Enquanto eles tiveram tempo para tomar um banho quente no balneário e regressar num transporte reservado, nós andámos mais de um quilómetro até à paragem de um autocarro público.

 

Do voleibol para a elite romena do desporto

 

O jogo entre o Steaua e o Arcada Galati não foi a única parte desportiva do fim-de-semana prolongado. Durante as nossas pesquisas, tínhamos percebido que havia um Museu Desportivo do Comité Olímpico da Roménia junto ao «Arco do Triunfo» de Bucareste. Fomos obrigados a fazer duas viagens – estava fechado no primeiro dia – mas valeu a pena.

Edifício moderno, feitos antigos

Afinal, o país tem uma grande tradição em Jogos Olímpicos e foi responsável por alguns dos melhores momentos da história. Como não podia deixar de ser, há uma pequena estátua de Nadia Comaneci, em homenagem à atuação perfeita em Montreal, nos Jogos de 1976.

 

O edifício é moderno e tem dois pisos, mas parece ligeiramente abandonado. Uma empregada garante a segurança das salas e explica-nos mais ou menos o que temos para ver. É um museu desportivo igual aos outros. Tem os melhores atletas, desde os pioneiros aos mais recentes, e conta-nos uma história com pormenores que desconhecíamos.

 

Há partes de equipamento que pertenciam às grandes figuras do desporto romeno e sentimo-nos assoberbados pela história. Para quem estava tão habituado a programar a componente desportiva de cada viagem ao pormenor, soube bem ser surpreendido e acabar a ver coisas que não nos tinham passado pela cabeça. Porque viajar também é isso: dar margem para nos deixarmos surpreender pelo inesperado.

 

PS: Por falar em surpresa, teve muita piada quando, oito meses depois, fomos ver o Sporting-Benfica em voleibol e estavam dois ex-jogadores do Arcada Galati em campo. Estava destinado.

 

 

 

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Bucareste no Pinterest

 

Sex | 21.09.18

Berlim: um estádio como minicosmos da história

 

Não há cidade no mundo onde nos consigamos sentir mais próximos de uma personagem do The Truman Show do que Berlim. A capital alemã transpira momentos históricos do século XX e a cada esquina somos invadidos por marcas da II Guerra Mundial ou da divisão das Alemanhas.

 

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A imponente entrada

Mais arrebatador do que isso é sentirmo-nos pequenos sempre que paramos para pensar e percebemos que a pessoa que temos à nossa frente terá uma história muito pessoal para contar. Dependendo da idade, pode até ter vivido com o Muro de Berlim e no epicentro da Alemanha Nazi. Ou simplesmente ouvido a história dos pais ou dos avós. Não precisou de ler nos livros como nós.

 

Berlim não é mais do que um enorme museu onde circulamos livremente e o Estádio Olímpico, de tão afastado do frenesim da metrópole, consegue ter momentos em que provoca uma viagem no tempo e nos sentimos parte dessa mesma história.

 

O metro no meio da floresta

 

A estação do Estádio Olímpico no metro de Berlim é a penúltima da linha U2. Fica já nos arredores de Berlim e, depois de uma fase em que nos deixamos levar pela azáfama da cidade, começamos a notar as carruagens cada vez mais desertas e a paisagem lá fora começa a substituir o cinzento dos prédios pelo verde das árvores.

 

É fácil sentirmo-nos perdidos, como se já estivéssemos a fazer parte de um novo mundo. Quando saímos na estação, não há uma única pessoa. Os carris entrelaçam-se em cinco ou seis linhas diferentes mas não há uma única carruagem a passar. Parece tudo abandonado.

 

A sensação parece cada vez mais forte quando saímos da estação, que até tem um pequeno museu do Metro de Berlim, com a parte de frente de uma carruagem amarela com destino ao Olympia-Stadion a sair por uma parede.

 

As indicações para o estádio impedem qualquer sensação de medo e, com o passar dos minutos, começamos a ver pessoas aqui e ali. Mas o sentimento de estarmos numa outra era parece persistir. No topo de um pequeno túnel lemos «Zum Olympia Stadion», uma facilmente decifrável indicação, mesmo para quem nunca tenha tido alemão, e imaginamos como seria a azáfama de outros tempos quando as carruagens chegavam repletas de adeptos em peregrinação até ao estádio.

berlim_6.jpg

O túnel vai dar a uma pequena rua que, por sua vez, desagua na enorme praça do Estádio Olímpico. As marcas da imponência da arquitetura nazi são evidentes. O estádio pode ter sido remodelado para o Mundial em 2006, mas não é difícil vê-lo na década de 30, no período de maior pujança da Alemanha de Hitler.

 

De fora, continua a ter o aspeto clássico e duas enormes torres servem de enquadramento para os anéis olímpicos, que nos transportam imediatamente para 1936 e para os Jogos em que Jesse Owens desmitificou a noção de supremacia ariana propagandeada pelos nazis.

 

Curiosamente, não é a única invasão clássica de que somos vítimas. Junto à bilheteira onde compramos os bilhetes para visitar todo o complexo olímpico, está a decorrer uma exposição de carros clássicos que conseguem impressionar mesmo quem não é muito fã de automóveis.

 

Memórias desbloqueadas a cada segundo

 

Entrar no Estádio Olímpico, a partir do topo sul, serve quase como um desbloqueador de memórias a cada passo novo que damos. Talvez por se chamar Estádio Olímpico a ideia que mantemos sempre em mente é a dos Jogos Olímpicos de 1936, mas a história do estádio é muito maior.

 

Podemos estar esquecidos de outros momentos marcantes mas rapidamente eles são desbloqueados pelo olhar. Quando a pista de tartan de um azul berrante no meio de tanto cinzento se destaca, somos imediatamente transportados para os Mundiais de 2009, quando Usain Bolt estabeleceu o recorde do mundo dos 100 metros, que ainda resiste, de 9,58 segundos.

"Ruisain" Bolt

Do azul do tartan passamos para o verde da relva e imaginamos o peito de Materazzi a ser atingido pela cabeça de Zidane, não muitos minutos antes de Fabio Grosso decidir o Mundial de 2006 a favor da Itália. A história é tanta que nos sentimos pequenos de ali estar.

 

O complexo olímpico também está lá para nos fazer lembrar todos os momentos importantes pelos quais o estádio já passou. Num muro no exterior do estádio, durante vários metros, há pinturas que assinalam precisamente isso. Nós não resistimos a tirar fotografias: desde os sprints de Owens e Bolt ao concerto do U2, passando pelo erguer do troféu de Cannavaro em 2006 ou pelos festejos das alemãs durante um jogo do Mundial feminino em 2011.

 

Marcas do abandono

 

À medida que avançamos, a imagem moderna começa a ser substituída pela imagem clássica. Como se o bonito tivesse sido posto à frente, arrumando o abandonado mais atrás para não aborrecer os visitantes.

 

É aqui que entram as piscinas e o complexo onde se disputaram as provas de saltos. A água parece estar em condições, apesar de tudo, mas as bancadas estão com um aspeto de quem não vive há muito, com sinais de musgo e, muito possivelmente inalteradas desde a sua construção em 1936.

Complexo das piscinas

Por falar em 1936, sabemos já por esta altura que o nosso caminho vai terminar na famosa Torre do Sino do Estádio Olímpico. Ainda é preciso andar um bom bocado, apesar de visualmente estar já ali à nossa frente, e somos obrigados a contornar o Maifeld, uma enorme área de relva concebida para demonstrações de ginástica ou provas equestres.

 

Depois, finalmente, a Torre do Sino. Em toda a Berlim, é o local em que nos sentimos mais próximos de partilhar um espaço com Hitler. E isso nota-se no arrepio que sentimos na pele. O dia está nublado, mas não precisamos de estar muito agasalhados. Apesar disso, naquele instante, e também muito por culpa da construção de pedra, sentimos um frio na barriga muito mais intenso.

 

Os nossos passos ecoam lá dentro. Nas paredes, vemos imagens e lemos inscrições sobre o tempo da Alemanha Nazi. E vemos Hitler com vários dos seus ministros ali mesmo, naquele espaço, onde nós estamos naquele momento. E é intenso.

 

Alvo dos ataques dos Aliados, a estrutura já não é a mesma da década de 30. Teve de ser reconstruída, de forma fiel, em 1962. O sino dos Jogos Olímpicos de Berlim já não toca – rachou depois de uma queda durante um ataque britânico – e chega a parecer poético, tendo em conta que é uma referência a um dos períodos mais negros da história.

 

Mas, lá em cima, no topo da torre, o arrepio é substituído por uma arrebatadora contemplação da natureza. Com o Estádio Olímpico de Berlim mesmo à nossa frente – não há melhor sítio para o ver do que dali – conseguimos ver tudo o que nos rodeia, inclusive, ao longe, a omnipresente Torre da Televisão, construída pelos alemães de leste durante a era do Muro de Berlim.

A magnífica vista da Torre do Sino

É a sinédoque perfeita para acabar a visita ao Estádio Olímpico de Berlim. Ali, pisando a mesma terra que Hitler pisou, vendo o mesmo estádio em que figuras como Jesse Owens, Usain Bolt, Zinedine Zidane ou Fabio Grosso fizeram história e com uma construção, distante mas à vista, de uma época em que a Alemanha estava dividida.

 

É apenas uma pequena parte da viagem a Berlim mas ajuda-nos a entender o todo e a plantar uma vontade cada vez maior de um dia lá voltar.

 

 

 

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Estadio Olímpico de Berlim no Pinterest

 

Ter | 18.09.18

Abraçar a adversidade e ir à descoberta em Lyon

 

As viagens são capazes de nos marcar pelas mais variadas razões. Podem não passar de pormenores avulso, sem grande impacto no balanço final, mas nem por isso deixam de se tornar num sinónimo automático sempre que nos lembramos de um destino.

 

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Estátua de Luís XIV junto à Grande Roda

O dia em Lyon será lembrado para sempre como aquele em que decidimos que nunca daremos o nome de Dinis a um filho, nosso ou de outra pessoa qualquer. Sim, é nome de rei, O Lavrador, mas também o da criança que semeou o pânico durante duas horas dentro de um avião… mesmo atrás de nós, fazendo das nossas cadeiras um saco de pancada.

 

O objetivo era ir para Genebra mas o aeroporto fechou quando já estávamos a fazer a aproximação à pista e, depois de várias voltas no ar, acabámos desviados para Lyon. Foi a primeira vez em mais de 100 voos que nos aconteceu algo do género: já tínhamos brincado com a sorte com nevões, atrasos e avarias mecânicas, mas o destino, a ir ou a voltar, nunca tinha sido posto em causa. Desta vez foi impossível escapar.

 

A companhia aérea começou por prometer autocarros que fizessem a ligação até Genebra mas com o piorar das condições climatéricas até as estradas foram cortadas. A alternativa única passava a ser o comboio, com pelo menos sete voos nas mesmas condições que nós e a prometer o caos nas próximas horas.

 

As filas para comprar os bilhetes para o centro de Lyon, de onde depois sairíamos para Genebra, eram intermináveis. Fizemos o que fazemos tantas outras vezes: dividimos para reinar. Um numa, outro noutra (nas duas que nos pareceram mais pequenas entre cinco ou seis) e esperámos. De repente, enquanto falávamos ao telefone sobre os horários dos comboios, surgiu a proposta: «E se ficarmos cá até ao final da tarde e aproveitarmos para ver um pouco da cidade?».

Rio Ródano

Foi uma sugestão tão simples que nenhum de nós sequer chegou a pensar que poderia haver lados negativos. Desse por onde desse, íamos chegar a meio da tarde a Genebra, com o dia perdido, e já depois da hora marcada para a nossa visita ao CERN. Por outro lado, ao ficar em Lyon, íamos conseguir escapar ao caos de centenas de passageiros e seguir viagem com mais calma.

 

Nunca é bom ter um voo desviado. É uma situação que pode provocar stress e discussão, pode causar desentendimentos evitáveis mas ali, na fila para o comboio, percebemos que abraçar a adversidade e ir à descoberta de Lyon era a melhor solução que tínhamos. E a única boa também.

 

Maximizar o tempo disponível

 

Acordámos a pensar que íamos passar o dia em Genebra e de repente tínhamos pouco mais de quatro horas em Lyon. Todos os minutos eram valiosos e queimámos etapas: enquanto esperávamos pelo expresso para o centro da cidade, dividimos tarefas - a Sarah comparava os bilhetes do TER para Genebra através do telemóvel (evitávamos filas desnecessárias na estação e garantíamos os lugares), eu procurava pelo que pudéssemos visitar em Lyon «a correr».

 

Somos sempre mais adeptos de calcorrear as cidades, respirar o ambiente, observar as pessoas e a arquitetura, por isso não deveria ser muito complicado. Mas por vezes abrimos exceções e Lyon gritava por uma: o Centro de História da Resistência e da Deportação.

Céus franceses

Depois, sim, íamos procurar tirar o pulso à cidade e seguir rumo ao coração histórico e à sua arquitetura mais antiga. Num cenário perfeito, teríamos ido à Basílica de Notre Dame no topo da colina, com vista privilegiada para a cidade, mas a inclinação e a falta de tempo foram fortes senãos.

 

Afinal, tínhamos acordado às três da manhã – sem banho tomado porque as obras municipais acharam que seria uma boa hora para afetar o serviço de água -, estávamos cansados e os contras pareciam ser maiores do que os prós. Mas nem por isso deixámos de ficar fascinados com a parte velha de uma cidade que conjuga bem o passado com o presente e explora a gastronomia local a ponto de nos «obrigar» a experimentar o praliné rosa [desilusão!] numa das esquinas das ruelas da parte velha.

Uma experiência para não repetir

Quando demos por nós era altura de voltar. Foi pouco tempo, é certo, e havia mais a fazer, mas valeu a pena. Maximizámos a tarde da melhor forma possível e até aproveitámos um tempo muito mais convidativo do que aquele que estava à nossa espera em Genebra.

 

 

 

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Sex | 14.09.18

Ir a Cardiff ver os gigantes do râguebi

 

«Um dia vou ver um jogo de Gales ao Millennium.»

 

Quando escrevi esta publicação no Facebook a 1 de outubro de 2012, estava longe de saber o que o futuro me tinha reservado. Sim, já conhecia o Rui mas nunca tínhamos viajado juntos. A estreia com Paris, em janeiro de 2013, ainda não fazia parte dos planos e nenhum de nós sabia que nos íamos tornar obcecados não só com viagens mas também com desporto em viagens.

 

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Tudo isto torna ainda mais curioso que a 1 de outubro de 2015, exatamente três anos depois, o sonho que tinha revelado com uma frase simples se concretizasse: ver a seleção galesa de râguebi a jogar em casa, a mais emblemática, em Cardiff.

O famoso "chapéu" galês...

Podia dizer que foram só facilidades: metemo-nos num avião até Londres, apanhámos o autocarro e comprámos bilhetes para um jogo de Gales. Mas a verdade é que não foi nada assim. A história começou no início de 2014, quando decidimos que gostávamos de assistir a alguns jogos do Mundial que se disputava no ano seguinte no Reino Unido.

 

E se o primeiro passo estava dado e a decisão tomada, vinha agora tudo o resto: olhar para o calendário, perceber a que jogos queríamos e podíamos assistir, como chegaríamos lá, como seria com as férias necessárias...? Eu, claro, queria ver Gales. No Millennium, se fosse possível. E também ficaria muito contente se visse os All Blacks, se não fosse pedir muito.

 

Como os deuses do planeamento gostam de nós, prepararam dois jogos a 1 e 2 de outubro em Cardiff: Gales-Fiji e Nova Zelândia-Geórgia. Estava decidido, agora restava esperar... pelo sorteio para a compra de bilhetes, em setembro de 2014 (sim, sim, mais de um ano antes), e ver se conseguíamos ter a estrelinha da sorte do nosso lado.

 

Em setembro fizemos a candidatura para os dois jogos na categoria D (a mais barata) e um mês depois recebemos os resultados: não tínhamos bilhetes para o jogo de Gales. Sim, íamos a Cardiff, e sim, íamos ver os melhores do mundo, mas o meu sonho não se ia cumprir.

Râguebi invadiu as muralhas de Cardiff

Claro que, porque são atentos, percebem que a coisa não acabou aqui. Um mês depois abriu a venda geral ao público - posso escrever um post inteiro sobre o processo de venda dos bilhetes para o Mundial de râguebi, que repetimos para o Japão, mas não é o momento - e havia bilhetes para o Gales-Fiji. Na categoria C, bastante mais cara que a nossa escolha de "vamos gastar o mínimo possível". Mas havia. E nós já íamos estar lá no dia 2... E quantas oportunidades havemos de ter para ver Gales no Millennium? Pronto, seja. Comprámos os bilhetes. A 26 de novembro de 2014 ficou confirmado que dez meses e uns dias depois, estaríamos em Cardiff.

 

Entrámos numa nova fase: a viagem propriamente dita. Como chegar a Cardiff? Onde ficar? Claro que, nas três ou quatro semanas em que dura um mundial, as cidades que o recebem estão viradas do avesso. A antecedência era fundamental. Depois de ver as alternativas, optámos por voar para Londres e apanhar um autocarro até Cardiff. Lá, ficaríamos uma noite - de 30 de setembro para 1 de outubro - e, depois do jogo de Gales, seguiríamos para Swansea para a seguinte (porquê? Porque conseguimos reservar um quarto por 39 libras para a primeira noite, mas os preços mais baratos para o dia 1 começavam nas 300 libras). A terceira noite ia ser passada entre um átrio de hotel onde conseguíssemos beber um chá e o autocarro de volta para Londres, que partia às 4 da manhã.

 

Tínhamos tudo pronto, só restava esperar pelo dia da partida. Ia tudo correr bem - e correu mesmo (ou teria corrido se não tivesse havido um carro a incendiar-se numa autoestrada qualquer no meio de Inglaterra que transformou uma viagem de três horas e meia numa tortura de sete horas. Sem comida).

 

Cardiff não desiludiu. Há qualquer coisa de especial numa cidade que recebe uma grande competição desportiva: já o tinha notado em Berlim, em 2006, mas essa era uma enorme capital europeia. Cardiff é uma cidade que se percorre em duas horas de uma ponta a outra. Tudo cheirava a râguebi; dizer que o ambiente era festivo é o understatement do ano.

 

Aos apoiantes das equipas que jogavam naqueles dias juntaram-se milhares de pessoas que conseguiram bilhetes para um daqueles jogos e faziam longas viagens para chegar ao Millennium. John foi um deles: assistiu ao nosso lado ao encontro entre Gales e Fiji e, quando percebeu que éramos turistas, não conseguiu evitar meter conversa. «Estão a torcer por Gales porquê?» foi a pergunta feita de chapa. Lá expliquei o meu amor aos galeses, e aproveitámos o intervalo para saber um pouco mais sobre o inglês que estava ali - como tantos outros - a apoiar as Fiji. Tinha chegado a Cardiff de táxi, durante a tarde, vindo de Londres, e partiria logo depois do jogo. Porquê? «Consegui bilhete e, no final de contas, compensa mais ir e vir de táxi do que estar a pagar balúrdios para apanhar o comboio em horários pouco amigáveis. Hoje foi dia de trabalho.»

Adeptos de Fiji entre galeses

Para os que, vindos de fora, ficaram por aqueles dias na zona, Swansea foi uma escolha popular: não fomos os únicos a esperar na fila para chegar de comboio até à cidade vizinha e andar uns largos minutos da estação até aos hotéis do centro. E se Swansea não é o meu destino favorito, não posso dizer que a viagem de regresso a Cardiff no dia seguinte, em plena luz do dia, não tenha sido um regalo para os olhos.

 

Estar num Mundial (de qualquer modalidade, provavelmente) é uma experiência única. Para mim, foi além de tudo o resto um sonho tornado realidade: tinha visto Gales a jogar no Millennium. Mas agora não podia parar: próxima paragem, Japão-2019.

 

Voo (ida e volta, por pessoa): 75 euros (para Londres, Ryanair)

Autocarro (ida e volta, por pessoa): 12 euros (Londres-Cardiff, Megabus)

Alojamento (por noite, para duas pessoas): Cardiff, 46 euros / Swansea, 65 euros

 

 

 

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cardiff no pinterest

 

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