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Seg | 10.12.18

Ver um River Plate-Boca Juniors numa final da Libertadores… em Madrid

Quando as equipas entraram em campo

Quando começámos a viajar não tínhamos uma lista de eventos desportivos que queríamos mesmo ver. Até demorámos algum tempo a perceber que nos encaminhávamos cada vez mais para este tipo de turistas. É claro que a Sarah tinha o sonho de ir ver a Gales a Cardiff e eu já tinha visto vários jogos de praticamente todas as modalidades, menos futebol americano, nos Estados Unidos antes de a conhecer, mas nas viagens a dois isso não foi necessariamente um tópico de conversa no início.

 

Não tínhamos uma bucket list de desporto até… a ter. NBA, basebol e futebol americano nos Estados Unidos foram desejos naturais e ver o Mundial de Râguebi era uma semente que crescia na Sarah há alguns anos mas de resto foi uma tábua rasa. Este ano fomos finalmente a Roland Garros e continuamos com uma etapa do Tour no canto do olho. Mas ir a uma final da Libertadores nunca foi sequer um tema de conversa até novembro.

 

Os desejos nascem quase todos por acaso, mesmo que haja razões para isso. Haver um River Plate-Boca Juniors abriu o apetite para a Libertadores e li que em 2019, pela primeira vez, ia haver uma final a uma mão, disputada em campo neutro. A primeira edição será em Santiago do Chile e falei com a Sarah sobre a possibilidade de um dia podermos ir. Mal sabia eu que três semanas depois ia cumprir um sonho que nunca tinha tido.

 

A história correu jornais mas vou recapitular: a segunda mão da final entre os dois históricos rivais da Argentina estava marcada para 24 de novembro mas o autocarro do Boca Juniors foi atacado à chegada ao estádio do River Plate e chegou-se à conclusão que não havia condições para jogar. Depois de um adiamento de algumas horas e outro de um dia, a opção recaiu em organizar um jogo num estádio neutro… em Madrid.

 

Os bilhetes mais baratos, a partir dos 80 euros, apesar de serem um bem com enorme procura, eram uma pechincha perante a dimensão do acontecimento. Durante os dias seguintes – até à hora em que vinte mil lugares ficaram finalmente à venda – comecei a tentar recrutar companhia.

 

A Sarah vinha comigo a Madrid, claro, mas não estava interessada em ver o jogo, até porque comprarmos dois bilhetes juntos seria ainda mais difícil. "Vai estar muito frio", acrescentava. O meu primo, pai de duas filhas e com gémeas a nascer antes do Natal, também torceu o nariz: “E ser carne para canhão? Tenho quatro filhas para criar!”.

 

Apreensão moderada e euforia desenfreada

 

A compra do bilhete foi o momento mais stressante das últimas viagens. Mesmo quando apareciam lugares disponíveis, era impossível selecioná-los ou surgia depois qualquer erro que deitava tudo por terra. Por isso, quando finalmente chegou a confirmação final, não consegui evitar uma euforia inédita.

 

Faltava uma semana para o jogo e as reações foram diversas. A minha mãe, habitualmente ultra apreensiva com tudo, demorou a reagir quando lhe disse que ia a Madrid ver a segunda mão da final da Libertadores. Pausou por uns segundos, percebeu o que era de facto aquele jogo e soltou um: “Aaaah… isso são aqueles malucos?!”.

 

Outros tinham reações mais secas. “Mas eu li que o River Plate se ia recusar a jogar. Achas que vai haver mesmo jogo?”, foi uma conversa que tive mais do que uma vez. Claro que ia haver jogo. Não podia não haver jogo. Era uma oportunidade única e eu tinha conseguido agarrá-la.

 

Os dias que se seguiram foram marcados pela pesquisa de informação. Como ia ser o dispositivo de segurança, o que poderia levar para o estádio, como estaria a rede de metro. A curiosidade aumentava a cada dia e o os minutos que gastava a pensar naquela final aumentavam a cada noite antes de ir dormir.

 

Há onze anos demorei dois dias a fazer o download de um River Plate-Boca Juniors. Agora, ia finalmente estar dentro de um estádio a ver um superclássico. “O” superclássico da final da Libertadores mais ansiada de sempre.

 

Uma capital a abarrotar

Puerta del Sol não tinha espaço para mais gente

Madrid não tinha um palmo de espaço livre. Quando demos uma volta na noite de sábado, as praças estavam a abarrotar e ouvia-se um cantarolar diferente no castelhano que se ouvia. Ao ouvido destreinado poderia parecer tudo o mesmo, mas havia certas palavras que comprovavam que havia muitos argentinos pelo meio.

 

Depois, já perto da Puerta del Sol, ouvimos o “chamamento”. Eram cânticos típicos de claques de futebol que estavam a magnetizar aquela ponta da cidade. Por todo o lado havia adeptos do River Plate, vestidos a rigor. A árvore de Natal iluminada estava vestida com tarjas da equipa e dezenas de adeptos iam dando o mote com vozes mais fortes e chapéus-de-chuva brancos e vermelhos abertos e bem erguidos no ar.

 

Percebia-se que era um jogo ainda mais especial. As críticas à organização de uma final da Taça dos Libertadores na América em Espanha tinham sido muitas mas a verdade é que havia um outro ângulo. Depois da colonização e da libertação, os argentinos tinham cruzado o Atlântico para conquistar Madrid através das suas duas equipas mais carismáticas.

 

Dia de jogo, dia de contrastes

Estação de pinturas faciais

A organização espanhola não deixou nenhum pormenor por pensar. A enorme estrada que passa pelo Bernabéu esteve fechada desde a manhã de domingo e os adeptos do River Plate tinham a sua fan zone a norte, enquanto os do Boca Juniors estavam a sul.

 

Era uma tarde de festa. Havia polícias armados, polícia a cavalo, veículos blindados, polícias caninos. Mas não vimos nenhuma confusão. No lado do River Plate, no meio da estrada, havia uma estação para pinturas faciais, que ainda vi com a Sarah. Depois, ao passar pela zona do Boca, ela ainda viu um momento mais tenso, quando alguns adeptos acenderam tochas e obrigaram à intervenção da polícia, mas não passou disso. Foi facilmente resolvido.

 

As portas iam abrir três horas antes do jogo e foi nessa altura que nos separámos. Mostrei o bilhete, fui sujeito a uma primeira revista e comecei a vaguear pelas portas de entrada para o estádio. As filas já eram visíveis apesar de ainda faltar meia hora para abrirem. Enquanto esperavam, os adeptos cantavam.

Final foi uma oportunidade de negócio para muitos

A preparação do jogo exigiu trabalho. As regras de controlo eram apertadas e não era permitido entrar no estádio com muitos adereços. A solução passou por balões. Durante as três horas, alguns adeptos do River Plate foram distribuindo balões brancos e vermelhos por toda a bancada para dar um efeito verdadeiramente rojiblanco quando as equipas entrassem.

 

(Leiam uma experiência de jogo mais completa no É Desporto)

 

O jogo foi… vibrante. Não foi o jogo mais bem jogado mas valeu a pena. Valeria sempre a pena pelo seu significado mas num jogo com cambalhota no marcador e com direito a prolongamento é impossível ignorar o carrossel de emoções.

 

O desalento de estar a perder foi substituído pela euforia do empate, altura em que ninguém conseguiu manter os dois pés no chão e onde acabei praticamente de lado, só não caindo por milagre. Aliás, todos ali caíram de alguma forma, sem sequer chegar ao chão.

 

A tensão era palpável. Percebia-se o impacto daquele jogo, o desejo obsessivo de bater o rival histórico na conquista do troféu mais importante da América do Sul. Felizmente, acabei do lado de quem venceu. Sentir de perto a alegria, o momento de antecipação, a vibração com o golo e as lágrimas de felicidade a escorrerem pelos olhos de quem ganhou, de quem partilha aquele momento por videochamada com os familiares que ficaram na Argentina, foi especial.

Festa do River Plate no final

Como foi especial assistir ao outro lado já na carruagem do metro a caminho do hotel. Como os adeptos do River Plate ficaram mais tempo no estádio, ainda só havia praticamente adeptos do Boca Juniors. Havia lágrimas também, mas de tristeza. Havia olhares carregados, expressões desoladoras, capazes de criar empatia até com quem há poucos minutos estava a festejar os golos da outra equipa.

 

O desporto, o futebol, a emoção associada é assim mesmo. A felicidade de um acabará por ser sempre a tristeza do outro e raramente há um lado certo da história. É a conjugação dos dois que torna um momento como estes tão importante. Porque se um dos lados fosse completamente indiferente ao desfecho, este não teria significado.

Sex | 07.12.18

Um dia em Portland (Maine)

 

Como já vos dissemos, a primeira vez que estivemos em Boston juntos foi por apenas quatro dias, e com um frio de rachar, antes de nos pormos a caminho para atravessar os Estados Unidos no California Zephyr. Dessa vez ficou não só a vontade de voltar, com um tempo melhorzinho, mas também um “saldo” de 500 euros, cortesia da Air France por nos ter deixado em terra quando voltávamos, que aproveitámos para comprar viagem de regresso a Boston assim que chegámos a Lisboa.

 

E pronto, estávamos de volta a Boston em setembro de 2017. Claro que o nosso objetivo era ver a cidade com novos olhos, melhor tempo, repetir alguns locais e conhecer outros, mas rapidamente foi crescendo uma nova ideia: que tal aproveitar para visitar outra cidade? A nossa viagem a Boston transformou-se numa viagem à Nova Inglaterra quando incluímos um dia em Portland (Maine) no nosso planeamento.

Portland (Maine)

Só para esclarecer: não tínhamos nenhuma vontade especial de visitar Portland. Pensámos em ir a Providence, Salem ou explorar o Vermont – no final, a comodidade dos transportes até à maior cidade do Maine, e o que fomos lendo sobre ela, falou mais alto.

 

Saímos de Boston às 8 da manhã e, num momento nada típico nosso (a sério), chegámos à estação em cima da hora de partida do autocarro. Depois de uma corrida, lá ocupámos os nossos lugares para a viagem de duas horas até Portland – o exercício até seria bom para a nossa primeira paragem programada na cidade: o Becky’s Diner, uma instituição do pequeno almoço da cidade. As fotografias das panquecas fizeram-nos aguentar a viagem, os três quilómetros a andar até lá desde a estação e a espera que tivemos de suportar. Não desiludiu, mas duas doses alimentariam uma família de seis.

Panquecas do Becky's Diner

Apesar de termos feito o nosso trabalho de casa, e levarmos no telemóvel um Google Maps cheio de estrelinhas, não tínhamos grandes planos para depois do pequeno (grande) almoço. Assim, decidimos manter-nos fiéis a nós próprios e fomos passeando ao longo da costa, até depararmos com um dos vários postos de turismo de Portland. Decidimos entrar para pegar num mapa, mas a coisa não ia ser assim tão fácil.

 

O Rui estava com uma camisola dos Celtics que começou por ser um chamariz de conversa. De repente, uma senhora que deveria ter facilmente 80 anos e que trabalhava no posto começou a falar connosco e a contar-nos a sua vida. Disse-nos o seu nome de casada - Julie qualquer coisa - e contou, a muito custo, o que sofreu enquanto criança à conta do nome de família: Painchaud. Pãoquente, numa tradução literal. Adorou saber que éramos portugueses e recordou que em tempos, há várias décadas, tinha conhecido uns que lhes tinham mostrado as maravilhas da gastronomia portuguesa. Durante aquelas trinta minutos de conversa houve dois denominadores comuns: por que é que nós, portugueses, tínhamos decidido ir ali, e qual era o nome daquele prato que tinha comido há tantos anos e que lhe tinha deliciado o paladar. De repente, a meio do diálogo, soltou um "AH! Feijoada!".

 

Saímos finalmente do centro de informação, já depois de ouvir algumas recomendações da nossa nova melhor amiga, e continuámos pela costa, até aos vários parques de East End, a ponta da península que forma o centro da cidade de Portland. O caminho, ao lado do carril de um pequeno comboio turístico que ajuda a poupar os pés dos viajantes, é fácil de seguir e parece ser também um ponto muito atrativo para os locais. Aquela zona junto ao mar serve para admirar as pequenas ilhas formadas junto à costa, correr, passear os cães ou simplesmente para aproveitar um dos inúmeros bancos de jardim ali instalados.

East End de Portland

É também nesta zona, não muito longe de uma enorme colina muito bem arranjada, com bancos e relva bem tratada, que fica o Portland Observatory. Normalmente, o Rui tem de me convencer para tudo o que implica alturas e desta vez não teve sucesso. Foi sozinho, até lá acima, ver o que rodeia Portland e ter uma vista ainda melhor sobre as ilhas que fazem companhia àquela terra. Uma chamou a atenção: parecia um género de Alcatraz, que tinha sido um dos seus locais favoritos de São Francisco. Lá em cima, havia um monitor à espera de responder a todas as dúvidas: tratava-se da House Island e parecia-se com uma prisão porque era, na verdade, o sítio onde foi instalado o Fort Scamell, uma fortificação que respondeu à necessidade de prevenir ataques durante a guerra pela independência.

 

Portland, ou pelo menos o seu centro histórico, é uma cidade gira. Os edifícios são feitos com o mesmo tijolo vermelho que encontramos em tantos construções da zona, e a proximidade ao mar está sempre presente, seja nos motivos que decoram as montras das lojas, nos sons que se ouvem ao longe, no tempo, húmido, costeiro e, claro, nos cheiros. Aliás, os cheiros de lagosta a cozer são provavelmente a memória mais forte que guardo de Portland. E claro que tivemos de experimentar um lobster roll para o nosso almoço (foi mais um lanche, vá).

Lagostas, lagostas everywhere!

A tarde foi preenchida com um passeio pela Congress Street, a avenida principal onde se encontram os principais monumentos da cidade. Foi aí que encontrámos aquilo que provavelmente não esperávamos: uma quantidade imensa de referências aos imigrantes que chegaram à cidade nos séculos XIX e XX. Num país construído por imigrantes, como são os Estados Unidos, esta referência não é tão comum como se poderia pensar.

 

A visita a Portland, não tendo sido a mais extraordinária que fizemos – ou podíamos fazer –, lançou as bases para o que viria a ser uma tendência cada vez mais nas nossas viagens: aproveitar para fazer uma “day trip” a um sítio próximo. Em Boston, na vez seguinte, visitámos Salem, a terra das bruxas.

Qua | 05.12.18

Uma experiência de sons e violência patrocinada pelos Bruins

TD Garden na sua versão de hóquei no gelo

Por esta altura já se devem ter apercebido que consumimos – em grande escala – tudo o que é desporto norte-americano. Mesmo em casa, nas madrugadas e aos fins-de-semana, gastamos horas a ver jogos da NBA (bom, aqui mais eu do que a Sarah), de basebol e de futebol americano. Em tempos, mesmo antes de nos conhecermos, cheguei mesmo a ver um jogo de lacrosse indoor quando fui a Boston pela primeira vez.

 

Provavelmente já terão pensado que falta aqui uma modalidade dos big-four: o hóquei no gelo. Para nós, é o patinho-feio. Em Portugal nunca vemos e quando vamos aos Estados Unidos raramente está na nossa lista de prioridades. Afinal, o dinheiro não estica e por muito que queiramos a experiência completa, é sempre preciso fazer opções.

 

Por outro lado, também somos incapazes de dizer que não a um desafio. Em abril de 2017, na primeira vez em que fomos a Boston juntos, havia um jogo dos Bruins logo na primeira noite. A experiência foi muito semelhante ao que aconteceu agora em novembro: fazer o voo, chegar, instalar e sair pouco tempo depois a caminho do TD Garden.

 

O que se espera quando se vai ver um jogo de hóquei no gelo? «Porrada!», talvez fosse a primeira resposta da Sarah. Mais do que a violência das placagens associada a cada jogada, há sempre uma abertura para os jogadores perderem a paciência e sentirem que está na altura de tirar as luvas e partir para a troca de mimos, perante o olhar atento dos adversários e da equipa de arbitragem, que espera um momento seguro para intervir e aplicar a sanção habitual.

Cadeiras amarelas e pretas dominam o TD Garden

Mas um jogo de hóquei no gelo é mais do que isso. A tradição em Boston é grande – os Bruins são uma das seis equipas que estiveram na génese da NHL – e até as cadeiras do pavilhão o comprovam. Sim, se alguma vez se perguntaram por que razão o pavilhão onde jogam os Celtics está cheio de cadeiras amarelas e pretas, é porque o primeiro inquilino do contrato com os proprietários é a equipa de hóquei no gelo.

 

O frio que emana do rinque

 

Os preparativos para um jogo de hóquei não são muito diferentes dos outros. A romaria até à estação de comboio onde está o pavilhão começa horas antes e é impossível não percebermos que há jogo, à conta das centenas de camisolas larguíssimas – especialmente por serem usadas sem as proteções que os jogadores têm – que circulam pelos arredores.

O urso que nos recebe à entrada

Quando subimos as escadas rolantes para a entrada oficial no pavilhão, deparamo-nos com um enorme urso, uma oferta de outras núpcias que deixou o dono sem saber o que fazer e acabou por figurar no anel exterior da bancada. Depois, assim que se passa pelas portas de acesso às cadeiras, há uma corrente de ar frio que nos recorda perfeitamente o que estamos ali a fazer.

 

O público-alvo também é diferente. Aliás, o mais curioso (sobretudo se os jogos forem vistos de “seguida”) é perceber como os espetadores são tão diferentes de modalidade para modalidade. A multiculturalidade do basquetebol distancia-se dos desportos de nichos como o basebol – mais virado para as comunidades latinas – ou o hóquei no gelo. Quando estivemos em Atlanta, por exemplo, vimos mais brancos e latinos no jogo dos Braves do que nos três dias inteiros que passeámos pela cidade.

 

No hóquei no gelo reina o instinto, o grotesco, o animal. No rinque e na bancada. Os festejos por cada placagem mais violenta transportam-nos (como se fosse possível) para o Coliseu de Roma. O público quer golos e vitórias mas está sedento de violência, das jogadas mais agressivas, das pancadas no disco que ecoam pelo pavilhão e que atingem o auge quando entram em rota de colisão com um dos ferros da baliza.

 

O hóquei no gelo é também um desporto de sons. Talvez mais do que qualquer outro. Mesmo sentados na última fila do pavilhão, como caçadores que observam a presa (os Bruins) de longe, não conseguimos escapar a esta sensação. Os patins a cravar no gelo, o impacto das proteções de cada jogador numa jogada junto à parede do campo, os festejos nas bancadas… o disco a embater no poste. E, no auge, a sirene que toca assim que há um golo.

 

É o descarregar de toda a adrenalina. Não é uma emergência – embora o som seja igual à buzina de um grande navio – mas sim o toque de saída para a celebração. Cada equipa tem uma música que passa logo a seguir à sirene, que fica associada diretamente aos golos, e no caso dos Bruins é a Kernkraft 400 dos alemães Zombie Nation. É uma música eletrónica, pouco criativa, mas que se associa na perfeição a todo aquele ambiente. E que fica no ouvido.

 

Passada a euforia, já depois dos festejos e do recomeço do jogo, o comentador do pavilhão faz o anúncio oficial do golo, com o marcador e os autores da assistência. A terminar, religiosamente, solta uma espécie de uivo que é replicado por milhares de pessoas.

Bruins venceram 4-0

Sabem o que dizem do futebol em Portugal como sítio perfeito para descarregar as emoções do quotidiano? Bem, ver um jogo de hóquei no gelo consegue ser ainda mais adequado para libertar stress… nos momentos adequados.

 

A cada intervalo – um jogo tem três partes de vinte minutos – entram os famosos zambonis (uma espécie de trator que garante o estado perfeito do piso), muitas vezes com crianças no lugar do pendura. Assim, num abrir e piscar de olhos, a arena de gladiadores sobre o gelo torna-se num lugar para crianças inocentes cumprirem um sonho enquanto acenam para bancadas que reentraram numa fase de tranquilidade.

 

Resumindo, ver um jogo de hóquei no gelo nos EUA é uma experiência única. Tem momentos violentos mas não deixará de ser uma opção muito interessante, mais não seja para quem tenha algum interesse sociológico.

Seg | 03.12.18

Uma viagem ao passado à boleia da JFK Library

 

“JFK” é nome de filme, de documentário, de monumento. Para os… menos crescidos, é uma figura que faz parte da história, sem estar demasiado próxima de nós. Afinal, o seu assassinato ocorreu há mais de 50 anos. Por isso mesmo, e apesar de saber da existência de uma biblioteca-museu em seu nome, e de ter alguma curiosidade, nunca pensei seriamente fazer o desvio – estando em Boston – para ir até lá.Átrio envidraçado da JFK library

Os americanos têm esta tradição de ter uma biblioteca-museu em homenagem aos seus antigos presidentes, que começou após a presidência de Hoover (1929-1933). A mais recente já inaugurada é a de George W. Bush, no Texas – a de Obama deverá abrir ao público em Chicago, em 2020.


Além de funcionarem como arquivo para os documentos e coleções presidenciais, estas bibliotecas têm também uma componente museológica, com exposições sobre o período em que o presidente serviu como tal e, muitas vezes, sobre a vida do próprio presidente.

 

É o caso da JFK Library and Museum, erguida em Columbia Point (Boston). Para nós, foi uma surpresa. Sendo a terceira vez que visitávamos Boston, queríamos voltar aos nossos locais preferidos, claro (olá Fenway Park), mas também explorar zonas onde não tínhamos ido até então. A biblioteca fica em South Boston, ao pé do campus da University of Massachusetts, e um bocadinho “fora de mão” do percurso habitual do turista que visita a cidade e se limita ao centro, Cambridge e, eventualmente, Charlestown.

 

Aliás, esse tinha sido o principal impedimento para não termos visitado a zona antes: a viagem ao longo de quatro estações de metro, mais o shuttle gratuito, pareciam demorar demasiado tempo para o que a biblioteca nos ofereceria. Não podíamos estar mais enganados. Primeiro, porque a viagem se faz num instante; depois, porque mesmo que fosse muito mais longe, valeria a pena a visita.

JFK Library and Museum

O edifício em que está alojada não é espetacular, e apesar de eventualmente ter sido erguido num estilo que pretende ligar o intemporal com o contemporâneo, mostra o sinal dos tempos – foi inaugurado em 1979. Isso, no entanto, não é impedimento para se apreciar a arquitetura que contrasta enormemente, no bom sentido, contra a baía de Boston que tem como pano de fundo. Se não fosse por mais nada, já valia o passeio para ver a cidade de outra perspetiva.

 

Mas o verdadeiro encanto está lá dentro, e não é no caldo verde (Portuguese kale soup with linguiça) que servem ao almoço no café. Não façam como nós, que pensámos ver a exposição numa hora. Acabámos por passar lá quase 3h, e provavelmente poderíamos ter ficado mais.


Em dois pisos, somos levados a conhecer a história do miúdo John, do Massachusetts, que se torna jornalista e só depois entra na política, das várias campanhas, para a Câmara dos Representantes e depois para o Senado, e eventualmente para a presidência. E depois entramos naquilo que nos absorve, numa exposição intemporal que fala da crise dos mísseis de Cuba e da conquista do Espaço, mas também do presente norte-americano na altura, da relação com Martin Luther King (que já conhecíamos, depois da nossa passagem por Atlanta) ou da figura de Jacqueline Kennedy.

Pormenor do museu

Discurso da Tomada de Posse

Que nos põe a assistir a conferências de imprensa dos anos 60 durante largos minutos, e nos faz perceber por que é que o antigo presidente é descrito por tantos como um homem cativante, destinado para o cargo. Ao mesmo tempo, vamos apanhando pormenores familiares deliciosos – afinal esta biblioteca tem uma enorme influência, na sua génese e organização, da sua família.


Por mais americanizada que a visita seja – e não tenhamos dúvidas que o é, como em quase tudo o que é feito naquele país e fala de política – cumpre o seu propósito: é um local de educação e partilha e pensamento.

 

Praticalidades
Preço do bilhete: 14 dólares
Horário: 9h – 17h (o último filme introdutório começa às 15h55)
Como chegar: linha vermelha até JFK/UMASS e shuttle (gratuito) #2