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Qui | 30.01.20

Regressar ao Staples Center… com Kobe Bryant

Rui Pedro Silva

Soubemos que íamos regressar a Los Angeles em março de 2019. A viagem estava marcada para o final do ano e ainda não dava para planear grande coisa. Percebemos que, com sorte, seria possível voltar a ver um jogo da NBA no Staples Center, quatro anos e meio depois de termos estado presentes no jogo de despedida de Kobe Bryant.

As míticas cores dos Lakers no Staples Center

Aliás, só mesmo com muito azar é que durante os dias que íamos estar em Los Angeles não haveria pelo menos um jogo dos Lakers ou dos Clippers. Felizmente, conseguimos apanhar um de cada, embora o da histórica equipa da Califórnia tenha obrigado a uma dose dupla, poucas horas depois do final do jogo de futebol americano, no estádio onde Carlos Lopes venceu a medalha de ouro nos Jogos Olímpicos em 1984.

O jogo dos Lakers era o mais entusiasmante. Não era o primeiro – tínhamos visto o dos Clippers na véspera – mas teria LeBron James, Anthony Davis e, entre os adversários, Luka Doncic, o jovem esloveno que está a tomar a NBA de assalto ao serviço dos Dallas Mavericks.

O pavilhão pode ser o mesmo, mas a experiência é completamente diferente. As luzes, as cores e o ambiente mudam como da noite para o dia. Ali, mesmo ao pé dos nossos lugares, num topo atrás de uma tabela, estavam as camisolas retiradas dos Lakers. Não chegámos a fotografar verdadeiramente, mas foi impossível não sorrir ao ver a #8 e a #24 de Kobe Bryant. Se olhássemos para o outro lado, havia uma referência que talvez não se associe ao Staples Center: um banner dedicado a assinalar o recorde de mais concertos esgotados de Taylor Swift.

Los Angeles é assim mesmo. É a capital do espetáculo, e o Staples Center é contagiado pelo ambiente vibrante da cidade.

Vista do terraço do Staples Center

O jogo era especial. Os Lakers são uma equipa histórica mas nos últimos meses têm despertado ainda mais interesse. Primeiro, em 2018, com a chegada de LeBron James. Depois, no verão de 2019, com a troca que garantiu Anthony Davis. Ali, numa só equipa, dois dos cinco ou seis melhores jogadores da atualidade. Os preços dispararam e, se a isto juntarmos a expetativa de ver um novo duelo com Luka Doncic, percebe-se o entusiasmo.

As vedetas fazem-se esperar. Durante a contagem decrescente para a bola ao ar inicial, os jogadores saem para um último período de aquecimento e… LeBron é o último a entrar. É impossível não perceber o impacto do momento, com as gargantas e vozes dos milhares de espetadores a vibrarem com aquele instante que parece ter já mais de tradição do que de ocasional.

Toda a dinâmica do Staples Center está preparada para acolher duas dezenas de milhar de pessoas por cerca de três horas. Há comida para todos os gostos (saladas, cachorros-quentes, hambúrgueres, nachos, pipocas e muito tipo de bebidas) e topa-se à distância quem está mais habituado àquele quotidiano. Nós, que já vimos vários jogos, continuamos a sentir-nos principiantes. A querermos ir mais cedo, a sentarmo-nos mais cedo, a absorver tudo o que há para absorver. E memorizar.

O espetáculo na apresentação das equipas

É assim desde sempre. Nós até para o aeroporto vamos mais cedo. Pancas, vá-se lá conseguir explicar. Ali, naquela noite de 30 de dezembro, o jogo foi uma pequena desilusão. Luka Doncic esteve uns furos abaixo do que já tinha feito noutro encontro com os Lakers, cerca de dois meses antes, e a vitória da equipa da casa foi tranquila.

O espetáculo em si não desiludiu. Nunca desilude. Houve tempo para um intervalo magnífico com a atuação da Southern University Human Jukebox Marching Band (recomendamos que procurem coisas deles por aí), para dar a oportunidade a uma criança de fazer 10 pontos em 30 segundos com a promessa de uma oferta de bolsa de estudo e, para quem está mais dentro das manhas da NBA, para um «delay of game» assinalado a Kentavious Caldwell-Pope por ter entrado em campo com a camisola por fora dos calções. Tinham passado apenas alguns dias desde o célebre episódio das «queixinhas» de Chris Paul num momento semelhante.

Foi tudo mais ou menos previsto. Até os adeptos à nossa frente e ao nosso lado que não conseguiam tirar os olhos do telemóvel enquanto viam os minutos finais de um jogo de… futebol americano. Torciam acerrimamente pelos San Francisco 49ers, que jogavam com os Seattle Seahawks e precisavam de carimbar o melhor registo da fase regular.

Mas também houve algo inesperado. Kobe Bryant estava na primeira fila, juntamente com a filha. Apareceu no ecrã gigante e ouviu-se um bruá gigante das bancadas, de quem não esquece o herói, de quem mantém viva a gratidão perante uma lenda que venceu cinco títulos com a equipa e se despediu com 60 pontos da forma mais inesperada possível. Foi também uma forma de expressar um convite a aparecer mais vezes, como quem sente saudades de um período com tantas alegrias.

Kobe abraçou LeBron James, trocou uns piropos em esloveno com Luka Doncic e foi conversando com a filha, Gianna, uma ávida apaixonada por basquetebol. Foi o terceiro jogo da temporada em que foi visto. Foi o último. Ali, naquela noite, não deixámos de ficar boquiabertos com a coincidência: o último jogo dos Lakers que ali tínhamos visto tinha sido precisamente o da sua despedida. Depois, quatro anos e meio mais tarde, lá estávamos todos novamente, num regresso ao local do crime.

Hoje, um mês depois, a coincidência atinge umas pitadas de macabro, quando pensamos que não só estivemos no último jogo da carreira de Kobe Bryant pelos Lakers, como também no último jogo dos Lakers que Kobe viu ao vivo. E é duro.