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Ter | 22.01.19

A experiência de uma vida com os Chicago Cubs

 

Gostam de basebol? Não ficamos surpreendidos se a esmagadora maioria das respostas for não. Não é uma modalidade com tradição em Portugal, nem sequer há jogos transmitidos na televisão atualmente. É um desporto difícil de entender e costuma demorar tanto tempo, e ser tão parado, que os mais corajosos acabam por desistir.

 

Por outro lado, não é preciso de gostar de basebol para apreciar uma boa história. E aquela que está por trás do nosso grande desejo de ir ver este jogo dos Cubs em abril de 2017 é uma das melhores que o mundo do desporto já viu.

 

Não era um dia qualquer. Era o dia do primeiro jogo em casa da época seguinte ao título que tinha acabado com um jejum de 108 anos. Gerações inteiras de famílias morreram sem conseguir ver a equipa alcançar um título e em novembro de 2016 tudo mudou. Apaixonados por basebol, ficámos acordados até às cinco da manhã daquela madrugada para ver o jogo decisivo.

Festejos do título de 2016 imortalizados no Sports Museum

A história valia por si mas nós tínhamos uma motivação especial: já sabíamos que íamos estar em Chicago cinco meses depois, na altura do tal primeiro jogo. Poder estar lá, na bancada, seria uma oportunidade única, mesmo que se adivinhassem bilhetes a preço proibitivo. Garantir duas entradas foi uma experiência de stress e sofrimento que dispensávamos, mas a ocasião obrigava a isso.

 

Depois dos bilhetes, o frio…

 

Chicago é uma cidade famosa pelo seu vento. Quando quer, consegue ter um sol espetacular mas quando o tempo é mau, é mesmo mau. Sobretudo ao início da noite, quando o sol de põe e as temperaturas baixas do Lake Michigan são empurradas para a cidade.

 

O jogo prometia uma intempérie sem igual ao final da tarde, apesar de ter sido um dia bastante agradável. Quando seguimos para o estádio, já a temperatura fazia adivinhar uma experiência difícil. Nas imediações do campo, a multidão não dava tréguas e era praticamente impossível ter espaço para andar na rua.

 

As portas do estádio tinham acabado de abrir e, como gostamos de entrar com tempo, para absorver cada pedaço de história, especialmente naquele que é o segundo estádio mais antigo da liga, decidimos avançar. O primeiro desafio foi esse. Os Cubs foram das primeiras equipas dos Estados Unidos a proibir os bilhetes em papel. Para entrar, é preciso ter a aplicação específica aberta no telemóvel (tinha tudo para correr bem numa sociedade como a portuguesa, não tinha?) e os bilhetes validados. Mas, para nós, o roaming era um obstáculo, por isso fizemos um print screen num momento em que apanhámos wi-fi.

 

Avançamos com desconfiança, em portas uma ao lado da outra, e só temos 50% de sucesso. «Mas isto é um print screen?», pergunta uma rapariga que está a fazer o controlo dos bilhetes. A explicação surge sempre com o discurso de coitadinho: «Ah, mas somos de Portugal, viemos de longe, não temos roaming, achámos que podíamos entrar com o print-screen». Há alguma insistência mas a anuência surge depois. Estamos lá dentro.

 

E agora… esperamos

 

O jogo tinha início marcado para as 19h05 mas a organização pedira aos adeptos para irem uma hora mais cedo devido à cerimónia de hastear do banner relativo ao título de 2016. O momento era especial e nós não queríamos ficar de fora.

 

O que se seguiu foi uma experiência rara. O estádio estava muito bem composto mas não demorou muito até aparecer o aviso nos monitores de que, devido às condições meteorológicas, o início da cerimónia ia ser adiado.

 

Sim, mas quanto tempo? A chuva no início começou por parecer inócua mas rapidamente se transformou numa torrente capaz de ameaçar a realização do jogo. Só nos restou… esperar ao frio mas, pelo menos, protegidos da chuva.

 

Os minutos foram passando e nada acontecia. Ao olhar em redor, chegámos à conclusão de que os americanos só podem ser malucos da cabeça. Tudo bem que o tempo em Chicago tinha estado quente nos dias anteriores, mas vermos gente de calções e t-shirt era suficiente para mexer com o nosso sistema nervoso e ter frio por empatia.

 

A fome chegou mas a fila para as barraquinhas abertas ameaçava demorar mais tempo do que o próprio jogo. De qualquer forma, não se perdia nada. Aí, eram eles a perceber que nós estávamos adequadamente agasalhados. «Sim, sou portuguesa, eu vim preparada para tudo», foi uma forma discreta de evitar dizer que não éramos burros o suficiente para vir para um jogo de basebol em abril, em Chicago, à noite, de calções e t-shirt.

 

Festejar uma segunda vez

 

Se há quem diga que um jogo de basebol é aborrecido, agora imaginem estar horas consecutivas num estádio de basebol cheio sem nada para fazer. A organização percebeu isso e decidiu passar o jogo decisivo da final da Liga Nacional da época anterior, com os Dodgers. Não completo, entenda-se, porque ninguém queria ver os bons momentos do adversário.

 

Foi uma experiência coletiva impressionante. Na maior parte das jogadas, a atenção não era grande, mas parecia soar uma buzina coletiva quando se começava a antecipar algumas das jogadas mais importantes. O campo estava vazio mas as bancadas festejavam como se estivessem a ver o melhor jogo das suas vidas.

Em campo continuava... ninguém

Com isto, já passava da hora marcada para o início do jogo e não havia forma de arrancar. Em vez de dar imagens de outro jogo, os ecrãs passaram para a transmissão em direto do episódio de Dancing with the Stars. Porquê? Porque um dos participantes era David Ross, catcher que tinha sido campeão meses antes e que entretanto acabara a carreira.

 

É capaz de ter sido o único momento na vida em que uma pirueta e um passo de dança de difícil execução foram festejados como se de um home run se tratassem, mas David Ross era, ali naquele momento, o espelho da união dos adeptos dos Cubs em torno de um objetivo. Apesar de só ter jogado um ano em Chicago, o veterano tornou-se rapidamente um dos favoritos, e isso estava bem patente ali.

 

Finalmente os passos em frente

 

Os passos de David Ross parecem ter sido o mote para a noite começar finalmente a andar para a frente. Mas não foi tão bom como se esperava e o frio e vento (afinal Chicago é a Windy City) não ajudaram.

 

Houve aplausos, ovações e momentos comoventes, com jogadores míticos de equipas que nunca tinham conseguido vencer um título a fazerem parte da cerimónia, mas pareceu ser feito a correr, perante o desconforto aparente de todos os participantes, sem esquecer que havia ainda um jogo para disputar.

 

Mesmo o erguer do banner, supostamente o momento mais alto da cerimónia, foi traído pelo vento, com o pano a enrolar-se no poste de metal e a demorar muito mais tempo do que o previsto até se desfraldar definitivamente e ler-se finalmente "Chicago Cubs – 2016 World Series Champions".

 

Terminada a cerimónia, foi preciso ainda fazer a apresentação das equipas e o aquecimento dos jogadores, que esperavam há tanto como nós. Feitas as contas, o primeiro lançamento do jogo foi feito às 21h01 (03h01 da manhã em Portugal), depois de uma hora e 56 minutos de atraso.

 

A temperatura tinha caído ainda mais (estava agora nos cinco graus) e o vento tornara tudo mais desconfortável. A cada instante, sentia-se uma muralha de gelo a embater-nos na cara sem piedade e nem o bater dos pés constante no chão de pedra ajudava a manter o corpo quente.

 

O jogo em si seria um fracasso. Não se pode esperar muito quando o desconforto é tão grande que se começam a fazer contas a quantos minutos vai demorar cada metade de inning para descobrir a que horas poderá acabar o jogo.

 

Negociamos entre nós. Mais um inning? Até haver um ponto? Já? Mas vamos sair depois de ter gastado tanto dinheiro? O conforto ganhou qualquer discussão moral e decidimos ir embora no final do terceiro inning.

 

Seguir a corrente

 

Não fomos os únicos. Havia mesmo muita gente a abandonar o estádio. Curiosamente, ao sairmos das portas, os seguranças perguntavam se ainda se ia voltar. Não percebemos logo mas depois fez sentido. A nova loja dos Cubs estava a abarrotar e casacos e cobertores estavam a vender-se a um ritmo alucinante.

 

Decidimos entrar mas apenas para comprar uma bola para a coleção e… aproveitar o ar condicionado quente na cara. Íamos precisar daquele momento para voltarmos a casa em condições.

A prova da fraqueza: abandonar o estádio no quarto inning

No metro, havia adeptos dos Cubs em cada carruagem. Discutia-se o grau de desconforto a que tinham sido sujeitos. Mas sentia-se a felicidade de se ter feito parte de um momento histórico dos Cubs: não do jogo em si mas da celebração desse feito.

 

Depois de três innings no estádio, demorámos outros três a voltar a casa, bem a tempo de vermos os últimos três pela televisão. Parecia impossível mas o ambiente nas bancadas parecia ainda mais desconfortável e o número de cadeiras vazias aumentava a cada paragem.

 

Não foi fácil mas se fosse fácil também não seria para os Cubs. Afinal, aquela era a primeira paragem depois de um caminho que tinha demorado 108 anos.