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atlas de bolso

travel blog

Sex | 08.03.19

Alcatraz foi uma experiência perfeita em São Francisco

 

A prisão de Alcatraz encerrou em 1963 mas manteve-se no imaginário dos Estados Unidos e no do resto do mundo sem grande problema. Para quem crescia em Portugal, na década de 90, era difícil fugir às referências da prisão mais famosa do mundo, à conta de filmes baseados no famoso rochedo que se decidiu sentar na baía de São Francisco.

Ilha de Alactraz durante a aproximação de barco

O nome é suficiente para impor respeito: Alcatraz. A ideia de uma prisão numa ilha nem sequer era nova – basta ver o que o Reino Unido chegou a fazer com a Austrália, uma ilha "ligeiramente" maior -, mas nenhuma conseguiu impor tanto respeito e tornar-se tão famosa como esta. Mesmo sem cangurus.

 

Por isso, quando decidimos marcar a viagem para São Francisco, a visita à antiga prisão, agora tornada parque natural (o segundo mais visitado nos Estados Unidos, apenas atrás de Yosemite), foi um ponto de passagem obrigatório.

 

A reserva foi feita, como é aconselhado, com meses de antecedência. A Sarah estava em cima da urgência do assunto e, como sempre, não vacilou. Eu deixei-me levar na onda, como também é habitual.

 

Se o primeiro dia em São Francisco foi passado a ver desporto em… Oakland, o segundo tinha início marcado para Alcatraz. A caminho do cais 33, de onde saem os barcos para a ilha, chegámos a stressar com a lentidão do elétrico, mas tudo correu bem. Tudo, salvo seja. Estávamos sem máquina fotográfica e limitados às imagens capturadas pelos telemóveis.

 

Visitar Alcatraz é sobretudo uma imaginação mental. Nem é preciso ouvir os guias para saltarmos para um mundo em que os criminosos que davam problemas aos estabelecimentos prisionais espalhados pelos Estados Unidos eram recambiados para a Califórnia. Al Capone e Machine Gun Kelly estão entre os mais famosos.

 

Quando o barco atraca na ilha, recebemos as primeiras instruções. Falam-nos de tudo um pouco e não esquecem o tema mais tabu que algo tão famoso pode ter: as fugas. O mito dos tubarões que até usavam uniforme policial, as correntes fortes, a temperatura da água e muitas outras lendas foram, com o passar dos anos, crescendo de tom e serviam de desmotivação para quem tentasse fugir. Houve, ainda assim, tentativas. Uns morreram, outros desapareceram nas águas da baía, sem que o corpo alguma vez tivesse sido encontrado. Oficialmente, porém, o registo é claro: nunca ninguém conseguiu sobreviver após uma tentativa de fuga.

As marcas da ocupação índia no famoso reservatório de água

Está tudo organizado ao pormenor, até porque o fluxo diário é intenso e nada pode falhar. As marcas famosas de Alcatraz estão todas ao nosso alcance: os sinais da ocupação índia durante uma manifestação no final da década de 60, o reservatório de água, o edifício central onde ficavam as celas e… a esplendorosa vista para São Francisco, de um lado, e para a Golden Gate, do outro.

Vista para São Francisco

O edifício central promove, como nenhum outro, uma viagem ao passado. Vemos os chuveiros e deparamo-nos com a informação de que a água era sempre quente, para que os prisioneiros não se conseguissem adaptar a temperaturas frias antes de possíveis fugas pelas difíceis águas da baía. Passamos também pela cantina – única forma de comer em Alcatraz durante o dia -, onde a placa mantém a informação do último pequeno-almoço servido em 1963.

O pequeno-almoço servido no último dia da prisão

O ponto de maior destaque é, naturalmente, o bloco de celas. Somos introduzidos por um guia ao ruído implacável das portas das celas a abrir e fechar graças a uma alavanca manual. O barulho pode não ser ensurdecedor mas faz-nos engolir em seco.

As pequenas celas individuais de Alcatraz

Grande parte do castigo em Alcatraz era sonoro. Não apenas das celas a abrir e fechar diariamente mas também pelo que se ouvia através das janelas. O som constante das gaivotas, dizem-nos, chegou a enlouquecer alguns. Mas o mais difícil era mesmo quando o vento estava favorável e se ouviam, ao longe, as vozes dos homens e mulheres que se divertiam em São Francisco em dias de festa. Parafraseando Ornatos Violeta, estavam ali tão perto. Conseguiam ver (e ouvir), mas não agarravam.

 

A visita tem outros pontos de interesse. Sabemos que Alcatraz era uma verdadeira comunidade e havia famílias inteiras – dos guardas prisionais – a viver na ilha. Houve mesmo quem lá tenha nascido. Depois, passamos pela biblioteca, pela zona de recreação, pela sala das visitas e, já noutros edifícios, por uma exposição sobre presos nos Estados Unidos, num local onde os prisioneiros trabalhavam diariamente, fosse a coser calçado ou outra coisa qualquer.

Uma das muitas divisões de Alcatraz

Antes da despedida, visitamos a loja da prisão e somos – achamos nós – presenciados como uma coincidência incrível. William G. Baker, um dos dois antigos prisioneiros de Alcatraz ainda vivos, está a promover o seu livro – sobre a vida na ilha – distribuindo autógrafos e respondendo a perguntas dos curiosos.

 

Estava a caminho dos 90 anos e parecia apenas um velho simpático. Para trás, (descobrimos depois de ler o livro, não autografado, porque a fila era grande) estava uma vida de falsificação de cheques, motins na prisão, uma fuga e outros episódios menores que fizeram com que passasse a vida na prisão, com breves saídas, entre os 18 e os 80 anos.

 

Regressamos ao barco com a sensação de que Alcatraz é verdadeiramente especial. Senti-me mais rico com a experiência, feliz por fazer algo que nunca tinha imaginado para a minha vida. Nos dias seguintes, sempre que possível (e foram muitas as vezes), olhava novamente para a ilha e, já com a máquina fotográfica na mão, tentava encontrar o melhor ângulo para eternizar aquele momento.

 

Mesmo que não tenham crescido com a ideia de Alcatraz na cabeça, seja através de filmes com Sean Connery ou não, não percam a oportunidade de reservar a visita com antecedência. É estranho dizer isto sobre uma prisão, mas é imperdível.