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atlas de bolso

travel blog

Sex | 07.09.18

Fazer meio Portugal pela nossa "route 66"

 

Agosto, quatro dias e um destino traçado: Chaves, no sábado às 16.30h, para assistir ao encontro entre a equipa da terra e o Portimonense.

Linha de comboio em Vale de Cortiças, à entrada de Abrantes

Estes eram os ingredientes que, no dia antes da partida, tínhamos para decidir o que fazer. A ideia original era relativamente simples: fazer Lisboa-Braga e passear pelo Minho, com paragem por Guimarães, antes de seguir para Chaves. Nada contra, claro. Mas e se aproveitássemos para ver mais, ou diferente?

 

(Also available in English)

 

Não faço ideia como fui dar com um artigo sobre a Estrada Nacional 2, que atravessa o país de norte (Chaves) a sul (Faro), mas pareceu-me um bom ponto de partida para a viagem. Nós gostamos muito de atravessar países, como já se viu no California Zephyr. O grande final Chaves-Portimonense fazia com que tudo parecesse escrito nas estrelas.

 

A ideia de descer de Lisboa até ao Algarve e fazer a N2 completa para norte atravessou-se no nosso espírito, mas rapidamente nos lembrámos que a segunda-feira seguinte era de trabalho. Onde começar então a nossa viagem?

 

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O primeiro mergulho

 

Mora, Montemor ou Montargil eram as opções mais óbvias. Tendo chegado de Évora na manhã da partida para a nossa viagem, não estava desejosa de me sentir a voltar para trás - Montemor ficou fora. A diferença entre Mora e Montargil é mínima, pelo que decidimos seguir diretamente para a barragem e começar aí, em Montargil, a aventura.

 

Ainda antes do almoço estávamos de malas feitas e garrafas de água compradas para seguir viagem. Só sabíamos que três dias e meio depois tínhamos de estar em Chaves a tempo do jogo. O que faríamos até lá era para ser decidido na altura.

Barragem de Montargil

Com a N2 à vista, chegou também o espelho de água da barragem, apetitoso com o calor que se fazia sentir. Não era tarde nem cedo para dar início ao processo que se tornou uma mini-tradição destes dias: chegar ao pé de uma barragem ou praia fluvial, estacionar o carro, vestir o fato de banho e mergulhar de cabeça nas águas muito menos frias do que esperávamos.

 

A albufeira criada pela barragem de Montargil é enorme e tem vários pontos de acesso à água. Nós ficámos logo à chegada, meio intrusos no meio de duas famílias acampadas nas margens, a pescar as próximas refeições. A água estava quente e ainda deu para um par de mergulhos antes de decidirmos que era boa hora para nos fazermos à estrada. Era o início da aventura pela nacional até lá acima.

 

Paragem no castelo

Castelo de Abrantes

O caminho até Abrantes não teve grande história, mesmo com o encanto de passarmos ao lado do aeródromo de Ponte de Sôr. A placa de Domingão City, memória de outras aventuras, já tinha passado a Domingão. E aquela hora de carro fez-se bem, até a fome apertar.

 

Chegados a Abrantes, já mais hora de lanche que de almoço, decidimos parar no Castelo para a verdadeira photo op e alimentar o corpo antes disso. Não ficou por notar que, ao entrarmos n'O Alcaide, do outro lado da rua, o dono teve o cuidado de mudar a televisão da tourada para um canal de música.

 

Alimentados de estômago e olhos, seguimos viagem em direção a Vila de Rei - o único ponto de paragem definido ainda antes de sairmos de Lisboa. Mas ainda antes de chegarmos, uma placa a indicar a praia fluvial do Penedo Furado levou-nos a mais um desvio, e a mais um mergulho.

Praia fluvial do Penedo Furado

Agora, depois de lá estarmos, já sabemos que é uma praia fluvial conhecida e reconhecida pela beleza natural. Talvez por isso tenha sido a única em que nos sentimos com demasiadas pessoas. A estrada para lá chegar é sinuosa, e estava repleta de carros estacionados ainda longe da água. Como a sorte protege os audazes, descemos com toda a confiança e conseguimos chegar bem perto da praia. Nova muda de roupa, mergulho naquela água límpida onde não faltavam peixes e podíamos seguir viagens, mais frescos.

 

O centro de Portugal vinha a seguir, de forma bastante literal. "Estar no centro geodésico é um prazer tão inútil. Mesmo fixe", foi o que nos disseram, e na verdade é uma boa descrição da nossa paragem. Só quisemos dizer que tínhamos estado ali, no verdadeiro centro de Portugal, e ver a vista lá do alto. Daí que fosse a única estrelinha marcada no nosso mapa antes da viagem.

Centro geodésico de Portugal em Vila de Rei

Fomos brindados com um local quase deserto (com wifi gratuito!) e um barulho inacreditável de rajadas de vento que não sentimos. Zero de arrependimentos.

 

Com o final da tarde a aproximar-se a passos largos, era chegada a hora de decidir onde ficar a dormir. E, deixem-me que vos diga, não é tarefa fácil arranjar dormidas fora dos grandes centros turísticos, em pleno agosto. A solução? Atravessar o rio e pernoitar em Ferreira do Zêzere. O único problema foi passar pela pior ponte que já atravessei na vida (a culpa é das vertigens...). 

 

Dica importante? Não assumam que vai ser fácil jantar num dia de feriado em agosto.

 

A ponte que não vale o desvio

 

O dia 2 da nossa viagem começou com nova passagem pela terrível ponte, de regresso à N2. Estávamos em plena área ardida no ano anterior, e não há como evitar olhar para os quilómetros de troncos queimados e sentir um arrepio na espinha. A cada nova curva ou estreitamento de estrada avaliamos como sairíamos dali se um incêndio estivesse à nossa volta.

 

Para esquecer incêndios, decidimos então seguir para novo mergulho. Antes, no entanto, a indicação de uma "ponte filipina" chamou-nos a atenção. Iríamos então à descoberta... e ao arrependimento.

Ponte Filipina em Pedrógão

Construída durante a dinastia filipina (que choque!), a ponte é bonita, ligando as duas margens do Zêzere muito perto do rio, mas o caminho até lá - e para sair de lá... não é o melhor, digamos assim. Estranhámos quando vimos um carro estacionado no início da descida, quando o mapa indicava que ainda estávamos a um quilómetro da ponte. Mas decidimos continuar caminho.

 

Depois já era tarde de mais para voltar para trás: a estrada é estreita, sempre a descer em inclinações perigosas, está em más condições e é escorregadia mesmo no verão. "Como voltar para trás quando chegarmos lá abaixo?" era o pensamento que teimava em não nos deixar. Felizmente, o mapa mostrava que as curvas eram em menor número do lado de lá do rio.

 

Depois de uma breve paragem para fotografias, o caminho tinha de ser feito. E, tirando um momento de pânico em que as rodas do carro (citadino) ficaram presas num buraco e teimavam em não andar, tudo se fez. Chegámos de novo à N2 e seguimos viagem.

 

Pedrógão Grande: terra de caiaques e pedras

 

Chegámos a considerar fazer um desvio para a praia fluvial do Troviscal, mas achámos que não valia a pena - acabámos por escolher a barragem de Pedrógão Grande. Boa escolha. Logo à chegada fomos presenteados com a visão que faz palpitar o coração de um de nós - caiaques!

Barragem de Pedrógão

A chamada era irresistível e nem uma não muito funcional anca/perna foi obstáculo para os 30 minutos de exercício físico que nos permitiram chegar ao outro lado da albufeira e dar uns mergulhos longe das (poucas) pessoas que aproveitavam a barragem. Infelizmente, isso também quis dizer que ficámos longe da proteção da piscina flutuante: um pé batido numa rocha pôs em risco a viagem de caiaque de regresso - que se fez -, obrigou-nos a uma troca forçada de condutor e a uma visita à farmácia mais próxima.

 

Com os mergulhos "em espera" até haver melhorias do pé maltratado, seguimos viagem em direção às Aldeias do Xisto. A estrada que liga Pena, Aigra Velha, Aigra Nova e Comareira à Nacional 2 não é para estômagos desarranjados, e leva algum tempo a ser percorrida, mas vale bem a pena.

 

Em Pena, três ou quatro ruas com as tradicionais casas de pedra, misturadas com outras de construção mais recente, debruçam-se sobre um penhasco que tem, no fundo, uma ribeira com bom aspeto para mergulhos. Num dia de calor como o que estava, não se vê ninguém na rua, e talvez por isso nem nós conseguimos passear mais do que uns minutos. Mesmo assim, desvio acertado.

Pena, uma aldeia de xisto

Atravessamos o Mondego em Penacova quase sem dar por isso, e num instante deixamos para trás o distrito de Coimbra. Sem grandes melhorias, os mergulhos continuam afastados da ideia e decidimos "papar" quilómetros para nos aproximar o mais possível da cidade de Viseu. Damos uma voltinha por Santa Comba Dão e Tondela, antes de chegarmos novamente à hora da decisão: onde dormir hoje? A escolha é Nelas, a que chegamos saindo ligeiramente da "nossa" estrada.

 

Dia 3 - de Viseu a Trás-os-Montes

 

As horas de estrada começam a fazer-se sentir e uma boa noite de sono é recuperadora. De manhã (relativamente) cedo, seguimos viagem em direção a Viseu, onde aproveitamos para visitar o Parque do Fontelo, onde treina o Clube Académico da cidade. Mais uma vez, como a sorte protege os audazes, chegamos mesmo à hora do treino - é Manuel Cajuda que está ali rodeado de jogadores, num campo secundário.

 

À saída da cidade nota-se que a paisagem não é a mesma que encontrámos no dia anterior. Mesmo os troços ardidos têm uma aura diferente dos mais a sul e as casas por onde passamos gritam "Beira Alta". É um passeio bonito, e diferente, em direção à primeira paragem do dia: a praia fluvial da Folgosa.

Praia fluvial da Folgosa

Chegamos ainda antes da hora de almoço e não há muita gente: algumas famílias estenderam toalhas na sombra, mas o barulho é quase mínimo e a água está pouco concorrida. Entramos à confiança, meio aos tropeções porque as pedras no fundo não são amigáveis. À nossa volta, uma mão-cheia de peixes mordisca-nos pés e pernas. A água é a mais fria que apanhamos na nossa viagem, mas também a mais límpida e serena. Podíamos ficar ali horas - mas vamos seguir viagem.

 

Paramos em Lamego para almoçar e dar uma volta pela cidade. Curiosamente, só à segunda passagem pelo Parque Memorial da cidade damos pelo enorme santuário que lhe faz sombra: o Santuário de Nossa Senhora dos Remédios. Inspirado no Bom Jesus do Monte, em Braga, desafia-nos a uma subida, mas o calor que se faz sentir é mais forte. Ficamo-nos pela contemplação à distância.

 

O caminho até Peso da Régua é sinuoso e ladeado de vinhas, com o Douro a espreitar de vez ao quando lá ao longe. Pela primeira vez nestes dias, apanhamos uns minutos de trânsito - para atravessar a ponte - que rapidamente são ultrapassados. Decidimos seguir viagem com a Barragem de Sordo em mente e, mais engano menos engano (não pensem que seguir a N2 é só ir sempre em frente), lá chegamos ao nosso último mergulho.

Vinhas no Douro

Os comentários que tínhamos lido diziam que a água era límpida e quente. Conhecendo a zona, e a resiliência dos transmontanos, tinha as minhas dúvidas sobre a parte do quente - mas a verdade é que não há outra forma de descrever a temperatura da água. Quem estava dentro de água comentava isso mesmo, e mantinha um ar de quem está na esplanada. Ótima escolha para quem está perto (mesmo que o piso da estrada até lá não esteja propriamente bom).

 

O final do caminho

 

Foi também na barragem que decidimos que seria boa ideia passar já a noite em Chaves (ou perto) para poder descansar mais do que tínhamos feito até aí. Depois do jogo só íamos ter 24 horas para voltar a casa, e convinha ir de olhos abertos.

Barragem de Sordo

Assim, a passagem por Vila Real foi em versão express e a principal preocupação começou a ser arranjar dormida no destino final. Sabíamos, pelas pesquisas que fizemos logo quando a ideia da viagem se formava, que os hotéis na cidade estavam praticamente esgotados, pelo menos para reservas online. A nossa esperança eram as tradicionais pensões e residenciais que encontraríamos pelo caminho.

 

Com a aproximação a Chaves começámos a reparar em nomes, fazer paragens e chamadas. Nega atrás de nega. Decidimos ir andando e demos connosco no estádio do Desportivo de Chaves, onde aproveitámos para comprar os bilhetes para a partida do dia seguinte e, na loja do clube, juntar mais uma camisola à coleção. Sem nada a perder, aproveitámos para explicar a nossa situação e perguntar às funcionárias presentes se tinham alguma ideia de sítios onde pudéssemos pernoitar.

 

Abençoada decisão que, logo à primeira, nos permitiu reservar o último quarto disponível numa albergaria logo à saída da cidade. "Não se esqueçam de dizer que foram pelas amigas do Chaves, que eu sou vizinha", disse-nos uma delas. O recado foi dado e chegou assim ao fim a nossa viagem.

 

O sábado seria dedicado a tentar combater o calor e ver um pouco da cidade transmontana, antes de seguirmos em direção ao estádio ver o aguardado Chaves-Portimonense - podem ler a experiência aqui.

 

Leia também o nosso top-5 de paragens a fazer na Estrada Nacional 2

Chaves

  

 

 

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