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atlas de bolso

travel blog

Sex | 23.11.18

Guia (completo) de Boston

 

Como se faz um guia sobre uma cidade que já se visitou mais do que uma vez e onde se anda constantemente a fazer coisas diferentes? Estruturar este texto foi um grande desafio e não há uma lógica definitiva, mas acreditamos que esta talvez seja a forma mais simples de mostrar quão bom Boston pode ser e convidar-vos a conhecer uma cidade que raramente aparece no topo das listas de viagens.

As cores de Boston

Acreditem em nós: é imperdível e consegue ser linda independentemente da estação do ano ou se estamos a vê-la de East Boston, South Boston, Cambridge ou do topo do Prudential.

 

Freedom Trail, o guia que não nos deixa perder

 

Esqueçam os mapas, o pânico de ficarem perdidos (se forem dessas pessoas e ainda não conhecerem os encantos de andar à deriva numa cidade) e a constante procura por edifícios de referência que vos ajudem a perceber onde estão.

 

O Freedom Trail é um convite a conhecer a história de Boston e basta seguir uma linha vermelha de tijolo no chão. Uma das pontas fica no Boston Common, um parque no coração da cidade, passa pela Massachusetts State House, e segue na direção da zona mais histórica, com destaque para a Old State House, o Faneuil Hall e a Paul Revere House - já no North End - antes de atravessar a ponte e seguir em direção ao USS Constitution e ao Bunker Hill Monument, em Charlestown.

Seguindo o percurso do Freedom Trail

No total, são quatro quilómetros, 16 pontos de paragem com história para contar e uma primeira adaptação ao ritmo de uma cidade encantadora. Não se deixem enganar: os quatro quilómetros parecem pouco (e são, Boston é uma cidade muito amigável para se fazer a pé) mas o tempo passa a correr e vão ter vontade de fazer imensos desvios ao longo do percurso.

 

Dica: para os mais fracos de pernas, é mais que possível - e nós fizemos isso até porque ficámos alojados “a meio” - dividir o Freedom Trail em dois: North End e Charlestown num dia, Downtown e Boston Common no outro.

 

Downtown e o roteiro gastronómico

 

Os prédios de Boston não são tão altos como os de Nova Iorque ou Chicago mas conseguem fazer-nos perder a orientação. O formato da cidade é enganador e as ruas, especialmente nesta zona, fogem à tendência paralela/perpendicular de todo o país.

 

Dito isto, o Quincy Market é um excelente ponto de referência para «atacar» a zona da Downtown. A área é rica em soluções para comer mas há três que se destacam: os lobster rolls (recomendamos!), o New England Clam Chowder (recomendamos vivamente!) e a… Ghirardelli (não recomendamos porque quanto menos vocês comerem, mais sobra para nós quando lá voltarmos). Esta última é uma gelataria/chocolataria magnífica, que conhecemos pela primeira vez em São Francisco (onde está a original, com vista para Alcatraz e para a baía), e não resistimos a dividir um Land’s End sempre que passamos por uma. Acreditem: a mistura do brownie de chocolate, bola de gelado e caramelo salgado é perfeita e não se vão arrepender.

Não vale mesmo a pena parar na Ghirardelli

Mas este espaço não é só de restauração. Há lojas de todos os feitios - desde uma enorme para enfeites de Natal até uma de banda desenhada e respetivos adereços -, há a estátua de Red Auerbach, lendário treinador dos Celtics - e, de frente para a entrada principal do Quincy Market, há o Faneuil Hall.

 

Na primeira vez que lá estivemos não conseguimos visitá-lo porque ia haver uma cerimónia de naturalização e, à porta, estava já pelo menos uma dezena de pessoas - quase todas de aparência latina - vestidas a rigor e com o orgulho a jorrar pelos olhos. O Faneuil Hall é visto como o berço da nação, o local onde foram proferidos muitos discursos que favoreciam a independência e que serviram de dínamo para 1776.

Downton de Boston

Seguindo em direção ao centro mais moderno - rumo ao parque - passamos pela Old State House, um dos edifícios mais antigos da cidade - e não estamos muito longe do coração cosmopolita de Boston, onde estão os teatros, os grandes centros comerciais e mais opções de restauração: nós somos grandes fãs do Five Guys. A ideia de comer amendoins enquanto esperamos pelo pedido deixa-nos de água na boca. Vá, deixa-me a mim, Rui, porque a Sarah não os pode comer.

 

North End e Beacon Hill, a herança italiana e um bairro encantador

 

São os dois bairros em que ficámos alojados nas duas visitas de 2017. Em abril, optámos pela proximidade ao TD Garden (pavilhão dos Celtics e dos Bruins) e ao Freedom Trail e ficámos no North End; em setembro virámos a agulha e fomos para o mais famoso bairro de Boston, com vista para o rio Charles e a norte do Boston Common.

 

Comecemos pelo primeiro. É onde está grande parte do legado italiano - basta percorrer as suas ruelas para ficarmos apaixonados pelo cheiro a massa - mas também algumas das casas mais antigas da cidade. Uma delas, um ponto obrigatório do Freedom Trail, é a de Paul Revere. No século XVIII, ficou conhecido por organizar um sistema de comunicação através de lanternas que foi decisivo para a guerra com os ingleses.

North End

Outro ponto imperdível do North End, sobretudo se estiverem com a barriga a dar horas, é a Pizzeria Regina. Quase mais famosa do que Larry Bird ou David Ortíz, tem sempre fila e a recompensa chega ao paladar. É uma instituição não apenas do North End, mas de toda a cidade.

 

Beacon Hill é muito diferente do North End. É um bairro mais trendy, famoso pelas suas ruas inclinadas, árvores e lojas «simpáticas». Vista da Longfellow Bridge, ponte que atravessa o Charles e que proporciona vistas fabulosas, Beacon Hill até nem tem grande aspeto. Parecem casas amontoadas, sem qualquer critério nem rigor, quase como se fosse uma favela. Mas não é, está longe disso.

 

São das casas mais caras da cidade e um passeio por entre ruas e rampas ajuda a perceber porquê. A proximidade com o passeio ribeirinho é uma grande vantagem. Em poucos minutos, conseguimos estar sentados num cais que é perfeito para ver o pôr-do-sol… ou simplesmente a contemplar o passar das nuvens. Duas paragens imperdíveis são a estátua de Arthur Fiedler e a Hatch Memorial Shell, palco de inúmeros concertos durante os últimos anos.

Pôr do sol em Beacon Hill

Para terminar, uma sugestão de museu que não fica muito longe. Junto da estação de Charles/MGH, uma região conhecida pelos seus hospitais e centros clínicos, está o Museum of Medical History and Innovation do Massachusetts General Hospital. A entrada é gratuita e, como o nome indica, é um sítio perfeito para perceber como a ciência evoluiu no campo médico.

Boston Common, Back Bay e Boylston

 

O Boston Common e o Boston Public Garden são dois parques contíguos - atravessados apenas por uma estrada - que ficam no coração da cidade. Servem como ligação privilegiada para algumas das principais artérias de Boston e têm vistas magníficas.

Boston Public Garden no outono

É nesta zona que podem atravessar simplesmente a estrada para estar nas escadarias da Massachusetts State House ou no famoso Cheers. No Public Garden, conhecido pelas suas estátuas de patos, lagos e pontes, há uma visão privilegiada para três dos edifícios mais icónicos da cidade: o Prudential, a John Hancock Tower e o Old John Hancock Building.

 

Este último é muito famoso por ser um constante boletim meteorológico, com base nas luzes que têm no topo. Para saber a previsão do tempo, basta decorar a seguinte frase: «Steady blue, clear view. Flashing blue, clouds due. Steady red, rain ahead. Flashing red, snow instead».

Mais uma, porque nunca são demais

Deste parque, há duas ruas que podem, e devem, ser percorridas a pé. Mais perto da baía, na região de Back Bay, está a Newbury Street, uma rua com construções a fazer lembrar Beacon Hill, mas repleta de pontos comerciais. No fundo, já perto do Fenway Park, há o famoso sinal da Citgo, considerado recentemente como National Landmark.

 

A outra é a Boylston Street. É talvez a rua mais famosa de Boston e é onde termina a maratona, junto à Copley Square. Até chegarem ao Prudential (onde recomendamos a subida até ao Skywalk Observatory para terem uma maravilhosa vista sobre a cidade), vão poder passar pela Boston Public Library (com um jardim recomendado no interior) ou pela Trinity Church.

 

Estejam também atentos ao chão para verem exatamente onde termina a maratona. Ah, e na base do Prudential recomendamos também a Cheesecake Factory, mesmo que não sejam fãs de Big Bang Theory. Além dos óbvios cheesecakes (os de Snickers e Limão estão entre os favoritos, mas a oferta é enorme), recomendamos também os deliciosos cogumelos gratinados que surgem como entradas.

 

South Boston

 

Sabem aquela Boston que aparece sempre nos filmes do Casey Affleck? Normalmente escura, meio suja e muito mais pobre do que era expectável para a zona? Pois, bem-vindos a South Boston… até há alguns anos. Hoje, a área para lá do Fort Point Channel (ou, para turistas, do Boston Tea Party Museum) é uma das zonas mais apetecíveis da cidade.

Vista para a Downtown do Harbourwalk

South Boston já não é reduto da comunidade católica irlandesa que se instalou ali até ao final do século XX. Os museus, os restaurantes de marisco e um paredão que nos dá mais uma perspetiva do centro de Boston são os novos protagonistas.

 

O Institute of Contemporary Art (ICA), que atualmente ocupa um enorme – e giríssimo – edifício no Seaport District tem muita piada para quem gosta de arte e performance contemporâneas. O preço dos bilhetes não é proibitivo (15 dólares), mas se mesmo assim quiserem poupar uns trocos, podem fazer como nós e aproveitar as noites gratuitas à quinta-feira (entre as 17h00 e as 21h00).

 

O único problema é que as novas construções bloquearam aquela que era uma das melhores vistas para a Downtown. Para isso, a melhor alternativa é dar corda às pernas para um passeio pelo Harborwalk, que começa mesmo ali e faz toda zona de costa, do lado sul do canal, até ao Rolling Bridge Park.

 

Para quem não tem medo de se aventurar para um bocadinho mais longe (são só três estações de metro de distância), uma das nossas mais recentes descobertas em South Boston foi a JFK Library. Trata-se de uma biblioteca/museu dedicada à vida e obra do antigo presidente norte-americano, e a verdade é que merece o desvio necessário para chegar até lá: ali conjugamos um crash-course de história do séc. XX com um espaço belíssimo, perfeitamente integrado na sua zona envolvente, e uma nova vista de Boston.

JFK Library and Museum

 

Cambridge

 

Cambridge é, na verdade, uma cidade distinta de Boston. Passa-se para lá do rio e pronto, já mudámos de mayor. Mas claro que é impossível deixar de fora quando falamos em áreas a visitar por aquelas bandas. É em Cambdrige que ficam os campi do MIT e da Universidade de Harvard, que valem uma visita por si só.

 

Para nós, Harvard é sinónimo de “campus universitário nos Estados Unidos”. Os edifícios antigos, de tijolo, com imensos espaços verdes onde os alunos estudam e conversam e jogam e sei lá mais o quê… é uma imagem de filme. Por outro lado, o MIT é uma mistura eclética de estilos que não faz muito pela unidade da universidade, mas é um prazer observar. Da cúpula mais que conhecida dos Edifícios MacLaurin ao Centro Stata há toda uma história arquitetural por contar.

Centro Stata no MIT

Entre as duas universidades há um café que nos satisfaz os desejos de doce e que achámos por bem referir aqui (porque para falar dos hambúrgueres do Flatt Patties ou dos doces italianos da Mike’s Pastry - que, já agora, também têm uma loja no North End - têm toda uma internet à vossa disposição): o Zinneken's Belgian Waffles. Escusam de dizer que vão da nossa parte, mas se estiverem por ali, façam uma pausa para café.

 

É também de Cambridge que, na nossa opinião, se têm as melhores e mais emblemáticas vistas de Boston. É certo que Beacon Hill se assemelha ligeiramente a um bairro de lata quando o vemos ao longe, mas a vista da Memorial Drive é inimitável. Com bom tempo, mau tempo e tudo o que houver pelo meio.

Vista do Memorial Drive

Se forem pessoas como nós, sem respeito pelos vossos pés e sempre em busca da próxima grande vista, podem seguir ao longo do rio Charles, fazer uma paragem para descansar no Kendall Sq. Roof Garden (um jardim “secreto” no topo de um silo de estacionamento) e atravessar a Longfellow Bridge para o lado de Boston - vão desembocar no sopé de Beacon Hill.

 

Um paraíso para adeptos de desporto

 

Boston é uma das cidades do Estados Unidos que tem equipas nas quatro principais modalidades profissionais. Bom, os Patriots não são propriamente da cidade (estão instalados em Foxborough e não é muito fácil chegar lá), mas Boston continua a ser um local perfeito para ver jogos de NBA, NFL, NHL e MLB.

 

Mesmo quem não gosta muito (ou de todo) de desporto deve ser capaz de incluir o Fenway Park no seu roteiro. Não vos vamos dizer para verem um jogo de três horas e meia (temporada vai de abril a setembro) no estádio dos Red Sox, inaugurado em 1912, dias antes do naufrágio do Titanic, mas recomendamos vivamente que façam o tour. Está menos gente e vão ter a oportunidade de conhecer pormenores deliciosos sobre a história e o presente da equipa.

 

Por outro lado, e se ver um jogo dos Patriots tem tudo para ser uma grande aventura, visitar a casa dos Celtics e dos Bruins é das coisas mais fáceis. Dá para andar praticamente de todo o lado: Fenway Park, por exemplo, fica na “outra ponta” da cidade, mas só está a 4,3 quilómetros de distância. O TD Garden fica no topo da estação de comboios que alimenta todo o norte do estado e basta entrar para ficar boquiaberto com a quantidade de história e títulos de cada uma das equipas que já passou por ali.

Fenway Park

À semelhança do Fenway Park, também há uma visita guiada disponível. No último andar do pavilhão, bem lá em cima, está situado o The Sports Museum, que faz uma viagem ao passado para recordar todos os momentos gloriosos de desporto que já passaram por aquela cidade, passando pelo basebol e pelas modalidades de pavilhão (inclusive boxe) e terminando na maratona. Os corredores com fotos de alguns desses momentos e adereços originais são um mimo. A entrada custa 15 dólares.

 

Categoria bónus

 

Nós avisámos que dividir Boston em categorias não ia ser fácil e, no meio de tanta distribuição, houve duas coisas que foram ficando para trás por acharmos que não se enquadravam obviamente em nenhuma das anteriores: as vistas de East Boston, junto ao aeroporto, e os cruzeiros que se podem fazer com saída da downtown.

 

Na última vez que visitámos Boston decidimos ficar numa casa perto do aeroporto, sabendo que nos ia permitir ter uma vista sobre a cidade que ainda não conhecíamos. Não nos arrependemos… nada. Se estiverem com a energia no máximo, poderão sempre ir até ao Piers Park mas, se quiserem uma coisa mais próxima com uma vista semelhante, há uma opção ainda mais próxima da saída da estação de Maverick.

East Boston

No LoPresti Park, a pouco mais de 200 metros da saída da estação, pode ver-se tudo a que têm direito, com destaque para a Downtown mas também para o North End e a famosa ponte que liga Boston a Charlestown. Acreditem: não se vão arrepender.

 

Outra hipótese que também permite ter uma excelente vista diferente sobre Boston é fazer um cruzeiro. As opções são mais que muitas - sobretudo se quiserem ir ver baleias - mas nós optámos por um barco mais pequeno - também por isso mais barato - que dá só a volta à baía mas que compensa… muito. Todas as tardes, minutos antes do pôr-do-sol, sai da downtown em direção ao USS Constitution. Ali, em posição privilegiada - e com quase uma dezena de barcos maiores atrás, poderão assistir ao disparar do canhão que é feito, sem falta, todos os dias à hora em que o sol se põe. Conselho: estejam preparados para o disparo e não se assustem.

 

A nossa volta acabou por ser vítima de um atalho porque um cenário de nevoeiro nunca antes visto - dito pelo capitão - abateu-se sobre a cidade e reduziu a visibilidade a quase zero. Por outro lado, enquanto ainda dava para ver alguma coisa, os cenários pareceram ainda mais bonitos. Deve ser impossível recriar mas ficou-nos na memória.

Nevoeiro (a sério) em Boston

 

Na órbita de Boston

 

Boston é também um ponto de saída perfeito para conhecer a Nova Inglaterra. Seja de autocarro ou comboio, com maiores ou menores viagens, há um lote infindável de opções para conhecer as cidades e estados na órbita de Boston. A parte boa: dar para ir e vir no próprio dia.

 

Nós recomendamos duas: ir a Portland (Maine) e a Salem. Na primeira, com uma viagem pouco superior a uma hora de autocarro, aproveitámos para conhecer um pouco melhor daquela cidade piscatória com uma grande tradição de receber embarcações da Europa. E, como não podia deixar de ser, comer um lobster roll junto ao mar.

Portland, Maine

Salem fala por si mesma. Conhecer a fundo a história da caça às bruxas do século XVII é quase uma obrigação para quem visita a cidade e serve também como uma forma de abrir os olhos para os perigos que corremos atualmente. A viagem de comboio, que parte da North Station (onde é o TD Garden) demora cerca de 30 minutos e, apesar dos atrasos ao fim-de-semana, também se consegue enquadrar muito bem no resto dos planos.

Salem