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travel blog

Qua | 24.10.18

O circuito dos direitos civis em Atlanta

King District

Senta-te ao balcão de um restaurante. Coloca os auscultadores nos ouvidos e assenta as duas mãos na bancada. Fecha os olhos. Ninguém te vem perguntar o que queres, se já foste atendido ou se estás à espera de alguém. As pessoas à tua volta desprezam-te mas não te ignoram. Longe disso: o único objetivo que têm é insultar-te, amedrontar-te… matar-te.

 

Durante mais de um minuto e meio, o único som que ouves saído dos auscultadores são as ameaças, os gritos, o arfar próximo de quem preferia que estivesses morto, que não existisses, que toda a tua família desaparecesse da face da terra. A cada barulho de pontapé ou murro na mesa, os teus pés e as tuas mãos tremem. É suposto. O objetivo deste espaço no Center for Civil and Human Rights em Atlanta é fazer com que sintas na pele o que os protestantes afro-americanos sofriam nos EUA em plena batalha pelos direitos mais simples.

 

A experiência é marcante, mesmo não tendo qualquer ligação direta a esta época. Quando o tempo acaba, uma assistente do museu coloca-nos a mão no ombro e diz-nos que já acabou, que aguentámos, que fomos muito corajosos ao aguentar aquele teste. Nem toda a gente consegue. Ao meu lado, uma mulher afro-americana sai em lágrimas a meio. Foi demasiado para ela. Há episódios demasiado marcantes, uma eventual história familiar ligada diretamente à luta pelos direitos civis, um passado incógnito.

 

A experiência provoca repulsa. Toda a primeira fase daquele piso tem esse condão. Antes, já tínhamos ouvido os testemunhos dos ícones da supremacia branca: aquilo que diziam, no que acreditavam e como o expressavam. Hoje, em 2018, tudo nos parece ridículo, despropositado. Mas não foi assim há tanto tempo e há vestígios que ainda persistem.

 

Atlanta é uma cidade que não nos deixa ignorar a sua história. Entre o Center for Civil and Human Rights e o King District somos constantemente expostos a algumas das partes mais negativas na história dos Estados Unidos.

 

Mesmo antes de Martin Luther King, Jr. nascer ali naquele bairro, a 15 de janeiro de 1929, já Atlanta era um ponto de ebulição racial. Descobrimos, logo no início do tour à casa que o viu nascer, que estávamos a poucos quarteirões do centro do motim que em 1906 matou mais de 30 pessoas, na sua esmagadora maioria afro-americanos. O rastilho foi a publicação no jornal de uma notícia falsa sobre uma violação. O estilo parece-vos familiar?

 

Humanização de um ícone

Casa onde nasceu MLK

A visita à casa onde nasceu e cresceu Martin Luther King, Jr. é gratuita e altamente recomendada. Logo no início, o guia que nos faz a visita ensina-nos que Martin nasceu… Michael. A mudança de nome – tanto dele como do pai para Martin – só aconteceu aos seis anos, quando o avô estava a morrer e expressou um último desejo.

 

A apresentação dos primeiros anos de vida do ícone dos direitos civis é perfeita e humanizadora. A casa mantém a estrutura há praticamente um século, a maior parte da decoração é a mesma daquela altura, e somos bombardeados com pormenores de como era Martin, sempre com base nos testemunhos da irmã mais velha - que celebrou o 90.º aniversário no ano passado, precisamente no quintal daquela casa.

 

Sabemos que ia esconder-se para a casa de banho e ler banda desenhada para evitar levantar a mesa após o jantar, que fez os possíveis para se escapar às aulas de piano em casa, e quais os jogos de tabuleiro e outras diversões tinha como preferidos. A ideia com que ficamos – e a que nos repetem com alguma frequência – é que Martin era uma criança igual a todas as outras, reguila, e que não nasceu já ícone da luta pelos direitos civis.

 

O bairro permanece praticamente intacto. É património nacional e reserva-nos outros edifícios com exposições e documentários sobre aquela época. A um quarteirão da sua casa, está o seu túmulo, imediatamente ao lado do da mulher, Coretta Scott King. Do outro lado da estrada, o Visitor Center dá-nos mais uma aula de direitos civis. É impossível escapar.

 

Martin Luther King Jr. foi um entre muitos

Visitor Center

Nós visitámos o King District antes do Center for Civil and Human Rights, por isso quando chegamos ao museu a história do ativista parece-nos já menos pormenorizada. Ali, há muito mais para saber, apesar de descobrirmos também a influência brutal que a Coca-Cola, outro produto de Atlanta, teve para que Martin Luther King, Jr. pudesse ser homenageado na sua própria cidade depois de lhe ser atribuído o Nobel da Paz.

 

Se o museu nos consegue fazer sentir repulsa numa fase, mais à frente é capaz de nos inspirar através da coragem de quem pareceu ser imune às ameaças para defender aquilo em que acreditava. Seja Rosa Parks, a mulher que se recusou a abandonar o lugar onde se tinha sentado no autocarro, ou Ruby Bridges, a primeira criança afro-americana a frequentar uma escola dessegregada nos Estados Unidos, em Nova Orleães.

 

A coragem é o denominador comum de todas as histórias que vimos. São inspiradoras. Fazem-nos pensar como é possível alguém achar que naquele momento poderia haver outro lado certo da história. Ao mesmo tempo, faz-nos pensar no presente e em como é possível continuar a haver dois lados em questões que daqui a uns anos serão óbvias. 

Center for Civil and Human Rights

O museu tem muito mais. Tem um andar inteiro dedicado às lutas pelos direitos humanos em todos os cantos do mundo e nem o 25 de Abril escapa. Somos confrontados com os ditadores mais famosos mas também com outros capazes de atrocidades idênticas, ainda que não gozem da mesma atenção do mundo. Num pormenor interessante, a exposição faz um balanço perfeito entre o bem e o mal, reservando um lado da parede para os vilões e o outro para os ícones da luta pela igualdade nas mais variadas áreas.

 

Atlanta é uma cidade que nos faz acordar para o passado, mais do que qualquer outra que conheçamos nos Estados Unidos. Faz-nos estar mais conscientes, mais atentos. Pode não parecer a cidade mais interessante para visitar mas é essencial para compreender a história.