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travel blog

Sex | 22.02.19

Quando a velocidade-cruzeiro nos ajuda a abrandar a vida

O preço-base de um cruzeiro não é muito diferente do que temos nos serviços básicos de televisão, por exemplo. É um valor que serve de chamariz mas a empresa percebe que o cliente não se vai sentir satisfeito com tão poucos canais. É como se quiséssemos comprar um gelado e o preço fosse apenas o do cone. Depois, passo a passo, vamos juntando as bolas de gelado, as coberturas e até a garrafa de água para não ficarmos com sede no final.

 

A filosofia de quem vende um cruzeiro é semelhante. As empresas sabem que o público-alvo dificilmente se vai contentar apenas com o quarto sem janela e sem serviços extra, por isso aquilo que começa por ser uma oferta tentadora, acaba por compor-se numa viagem que exige um esforço financeiro maior.

E o prazer de ler à beira da piscina?

O problema, deles e não nosso, como já vos escrevemos antes, é que nós não somos propriamente o público-tipo de um cruzeiro. Nunca duvidámos disso mas a cada novo passo que nos faziam dar, íamos confirmando cada vez mais que aquele mundo era diferente do que estávamos habituados.

 

O pacote de bebidas é capaz de ter sido o primeiro sinal. Sim, temos sempre comida para dar e vender no buffet e num restaurante, mas as bebidas não estão incluídas. Ou melhor, as bebidas alcoólicas, os cocktails, os refrigerantes e os sumos naturais não estão incluídos. Mas a água e alguns sumos, de máquina, fazem parte e são mais do que suficientes para nos manter hidratados durante os dias.

 

Depois, o wi-fi. Sim, hoje em dia é cada vez mais complicado resistir às tentações da internet e de nos mantermos ligados a qualquer hora, sentindo sempre que podemos estar a perder alguma coisa – sobretudo uma notícia (heranças do jornalismo, faz parte) – se não confirmarmos as nossas redes sociais, especialmente o Twitter, de tempos a tempos.

 

É à conta desta tendência que os valores do serviços de internet no cruzeiro são ainda mais caros do que poderíamos pensar. O mais básico, lento e com acesso a apenas algumas aplicações, exige o pagamento de 34,99 dólares pela semana. O mais caro ultrapassa a centena de dólares, para um dispositivo apenas. Se gostávamos de ter tido internet durante aqueles dias? Claro que sim. Se trememos? Nunca. Logo nos primeiros dias percebemos que estar offline foi uma das melhores coisas que nos podia ter acontecido.

 

Não vos vou mentir. É difícil saber que está a haver eventos desportivos sem saber como ficaram. A televisão do quarto tem ESPN – por isso sempre dá para nos mantermos a par dos desportos americanos, das principais ligas de futebol europeias e do torneio das Seis Nações -, mas é insuficiente para saber o que vai passando em Portugal.

 

Custa mas, vendo bem, podemos sempre aproveitar a chegada a cada porto caribenho para aproveitar o wi-fi de um bar ou de uma loja para, apesar de a velocidade ser muito lenta, nos pormos a par do que se está a passar.

 

Termos definido que o wi-fi seria um luxo acessório melhorou – em muito – a qualidade da nossa viagem. Hoje em dia, a internet promove o imediato, faz o tempo passar mais rápido, rouba-nos tempo para fazermos as coisas com calma. Durante aqueles dias, sempre que estivemos em mar alto, a velocidade-cruzeiro ajudou-nos a abrandar a vida.

 

Não perdemos tempo com redes sociais a ler coisas efémeras que rapidamente caem no esquecimento mas que nos provocam um tique viciante de continuar a procurar mais e mais para ler. Ao contrário do que muita gente diz, as pessoas não leem cada vez menos, leem apenas cada vez pior.

 

Durante estes dias, em vez de ler milhares de tweets descoordenados que não obedecem a uma cronologia natural ou a temas exclusivamente interessantes, tive tempo para ler quatro livros. Adormeci melhor e acordei mais cedo, sabendo que não me tinha deixado levar pelo gesto viciante que nos faz procurar por «e agora, o que estarão as pessoas a dizer?».

 

Ao colocar um preço exorbitante no wi-fi, explorando um vício cada vez mais presente no ser humano, o cruzeiro fez-me um favor. Permitiu-me ver que, sobretudo durante uma semana de férias, a internet é um luxo acessório muito longe de ser fundamental. Poupou-me dinheiro, tornou os nossos dias mais calmos e enriquecedores e deu-me capacidade para aproveitar melhor cada hora de umas férias onde o objetivo era apenas descansar.

 

Nunca pensei que seria também uma forma de desintoxicar da internet e das redes sociais mas acabou por ser uma cereja no topo do bolo. Um luxo pelo qual não tive de pagar. Afinal de contas, uma vida simples e calma tende a ser demasiado subvalorizada.

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