Saltar para: Post [1], Pesquisa e Arquivos [2]

atlas de bolso

travel blog

Seg | 01.10.18

Quatro dias em Nova Orleães sem engordar (demasiado)

French Quarter

A nossa dinâmica em viagem é muito complementar e, assim que definimos um destino, sabemos perfeitamente o que cada um deve procurar. Eu faço muito menos - normalmente limito-me a descobrir que eventos desportivos estão marcados para aquele período. A Sarah faz muito mais, vê atrações culturais e sítios para comer, transformando o Google Maps numa ferramenta com mais estrelas do que a Via Láctea.

 

(Also available in English)

 

Ela gosta desse trabalho mas nem sempre foi assim. Por termos apetites tão diferentes – e por diferentes entenda-se que eu sou capaz de levar qualquer pessoa ao desespero por raramente ter fome -, teve alguns dissabores no passado, com indefinições sobre o local e o momento para comer. Começar a procurar os sítios como trabalho de casa foi uma manobra de sobrevivência inteligente que melhorou em muito a dinâmica das viagens.

 

E por que é que tudo isto interessa? Porque para Nova Orleães, pela primeira vez, fui assaltado por uma sensação de apetite voraz. De achar que aquilo que mais me estava a atrair na cidade da foz do Mississippi era a comida. O problema? Não fazia ideia do que era a comida tradicional do Louisiana: não tinha memória de alguma vez ter ouvido falar em po’ boys, nos beignets do Café du Monde ou em gumbo e jambalaya. A razão é muito mais parva e está no filme Chef (2014) de Jon Favreau. Em poucas palavras, é a história de um chefe conceituado que perde as estribeiras e decide recomeçar do zero com uma caravana de comida. Começa em Miami e a segunda paragem é Nova Orleães.

 

Cometi a proeza de ver o filme duas vezes (na segunda com a Sarah) e passei a associar Nova Orleães a boa comida – deixem-me, tenho a certeza que há gente mais esquisita do que eu.

 

Quatro dias com a rota gastronómica na cabeça

Beignets do Café du Monde

Nova Orleães é uma cidade magnífica. Ainda assim, o calor intenso e a humidade elevada tornaram os passeios pelas ruas muito difíceis e percebemos isso logo na primeira madrugada, ao aterrar. Aproveitando o jet lag, decidimos reservar uma visita à Oak Alley Plantation (um dos sítios imperdíveis da cidade e arredores) para a manhã do primeiro dia.

 

O ponto de encontro era num hotel não muito longe do Café du Monde e, de forma espontânea, decidimos comprar o pequeno-almoço (os famosos beignets) lá, enquanto esperávamos pelo shuttle que nos ia levar naquela viagem de cerca de uma hora.

 

A vibração da cidade sente-se mesmo quando não há quase ninguém na rua. No caminho desde a casa em que ficámos até ao tal hotel, atravessamos o French Quarter e está tudo ainda em fase de limpezas. Os bares estão abertos, há mangueiras na rua e o cheiro pode não ser o mais agradável, mas não há como fugir ao caráter festivo de uma cidade que se distingue das outras por não ter “last call” para o álcool.

 

Pensámos que a visita à Oak Alley Plantation, uma quinta-museu que pertenceu a uma família francesa e que explica na perfeição como era a relação entre os proprietários e os escravos numa plantação de açúcar, ia ocupar grande parte do dia mas regressámos a tempo de almoçar e preencher a tarde com o que nos apetecesse.

Uma casa de escravos na Oak Alley Plantation

Escolhemos o World War II Museum. É caro mas dificilmente se consegue encontrar um sítio no mundo que mostre, com este nível de detalhe e rigor, daquilo que se passou. Não somos grandes fãs de museus (embora toda esta viagem possa apontar para o oposto) mas fomos surpreendidos por algumas das inovações oferecidas. A arrancar, entramos numa carruagem que simula aquelas que levavam os norte-americanos para o treino após o recrutamento e somos associados a um militar que nos vai acompanhar até à saída.

 

Fiquei com Jimmie Kanaya, um norte-americano com pais japoneses, que sofreu na pele a origem da família depois do ataque a Pearl Harbor. Em cada momento do museu, fui convidado a passar o meu cartão em máquinas designadas para saber como evoluiu Jimmie durante aquele período: do treino ao destacamento, passando pela fase que teve como prisioneiro de guerra, a libertação e a vida depois do fim do conflito.

 

É claro que as figuras foram escolhidas a dedo para serem as mais interessantes mas esta associação logo a abrir faz-nos sentir que cada visita é única e que a minha experiência será sempre diferente da da Sarah ou da dos outros visitantes entre nós.

 

O museu é enorme, composto por vários edifícios, e põe a nu a perspetiva muito europeísta com que nós aprendemos a história na escola. Se a exibição do conflito europeu serve mais para relembrar fases do que para descobrir, a evolução do conflito no Pacífico é muito mais do que aquilo que, numa forma redutora, podemos associar apenas ao bombardeamento de Pearl Harbor por uns japoneses que apareceram armados em maus e os ataques nucleares a Hiroshima e Nagasaki.

 

Uma figura do Katrina surge do nada

 

Depois de um primeiro dia mais ocupado, reservámos o segundo para conhecer a cidade e, sem prever, uma das suas figuras. Durante um passeio no French Quarter, reparámos numa enorme fila de pessoas para entrar numa loja.

 

A curiosidade jornalística (vá, talvez aqui o melhor termo seja cusquice) levou-me a ir ver o que se passava e confirmei que a fila tinha uns 40 metros e que quem saía da loja vinha com um sorriso de orelha a orelha por ter acabado de comprar uns… ténis dourados que a Nike tinha desenhado exclusivamente para Nova Orleães. A euforia era tanta que uma rapariga ofereceu-se para abrir a caixa e mostrá-los depois de me ter visto a tirar uma fotografia.

 

É neste momento que sou abordado por um homem cinquentenário que se prepara para subir para a sua bicicleta. «Queres saber uma coisa estranha?», pergunta-me, apesar de eu só ter percebido à segunda. «Há uma bicicleta minha no Newseum», continua, enquanto aponta para a t-shirt que eu tinha vestida, precisamente do museu de Washington, com a inscrição «Will write for food». É nesta altura que me explica que também é jornalista e que na altura do Katrina foi com um colega de bicicleta até ao sítio em que descobriu que um dos diques que protegia a cidade tinha cedido, ajudando a espalhar a informação e a evitar que a tragédia fosse ainda maior.

Parque do outro lado da Universidade de Loyola

O episódio, inesperado, chegou para perceber que em Nova Orleães não é preciso pedir licença para abordar alguém na rua. Entendi rapidamente também que t-shirts com inscrições (aquela não foi a única abordagem do dia) são um chamariz. Mas às vezes nem é preciso isso: mais tarde, quando íamos à procura de um po’ boy que a Sarah tinha nas recomendações, já depois de fazermos toda a linha do elétrico mais turístico (St. Charles Line) e de termos passado uns minutos no parque em frente à Universidade de Loyola de Nova Orleães, fomos a última alternativa de alguém que precisava de toda a ajuda que pudesse arranjar para carregar um órgão estragado, que alguém tinha deitado fora, entre o porta-bagagens do carro e a cave.

 

Tudo ali pareceu estranho. Não fomos capazes de dizer que não – mesmo que o esforço nos tenha deixado ainda mais suados num dia por si só capaz de fazer isso, mesmo que estivéssemos parados – e ficámos ali mais de meia hora a tentar encontrar uma solução, com mais cérebro do que força nos braços. Por fim, o vizinho militar da rapariga apareceu e tornou tudo mais simples, libertando-nos, suados, com arranhões, peles levantadas, nódoas negras e com pedaços de madeira por todo o lado, para o tal po’ boy que ficava já ao fundo da rua daquela zona residencial.

Po' boy de camarão

Acabámos a comer ao mesmo tempo em que LSU, a equipa universitária mais famosa de futebol americano do Louisiana, jogava contra um dos seus maiores rivais (Auburn). Não vimos o jogo todo, mas o triunfo in extremis com um field goal a terminar o encontro foi celebrado por toda a cidade, continuando a ser tema de conversa no dia seguinte, durante o jogo dos New Orleans Saints.

 

Uma aventura de uma ponta à outra (quase) na Canal Street

 

Depois do jogo dos Saints no domingo, a nossa agenda ficou completamente livre para fazermos o que quiséssemos. Normalmente esta é a altura em que percorremos a pé o que ainda não conhecemos, repetimos os locais que mais gostámos.

 

A conversa da véspera ainda ressoava na minha cabeça e estranhei que não houvesse qualquer memorial ou museu relacionado com o Katrina. A Sarah não tinha descoberto nada nas pesquisas que fez e eu decidi armar-me em herói pesquisando no Google Maps. Resultado: há um Katrina National Memorial Museum perto da Canal Street mas já muito afastado da zona mais movimentada.

 

Convenci a Sarah a fazer o caminho (a pé, péssima ideia) e quando lá chegámos percebemos por que razão ela não tinha encontrado nada: era um espaço residencial e parecia não ser mais do que uma pequena associação na casa de uma pessoa. Percebi (uma vez mais!) nesse momento que fazer as coisas por impulso nem sempre corre bem e resignámo-nos a regressar ao centro de elétrico.

Elétricos na Canal Street

A Canal Street é a principal artéria da cidade. Talvez se possa dizer que é como a Avenida da Liberdade, plana, mas com o centro reservado para as linhas do elétrico e para as palmeiras que dão um toque tropical à cidade. Os elétricos são uma excelente opção para ver a rua de uma ponta à outra (os três dólares de passe diário valem bem a pena) e fazer a ligação a pontos de interesse mais distantes.

 

Numa das pontas, há um centro comercial junto ao Mississippi, com vista para uma das pontes mais facilmente reconhecíveis; na outra, dependendo do elétrico que se apanha e já com um pequeno desvio, há o City Park, perfeito para dar um pequeno passeio e aproveitar o jardim das esculturas, gratuito, do New Orleans Museum of Art.

 

Favores em cadeia

 

Uma vez mais, a visita teria sido muito mais simpática se o calor e a humidade não estivessem tão insuportáveis, mas é suficiente para perceber o encanto do parque. Para regressar, na pequena “escala” que fazemos na Canal Street para trocar para o elétrico que nos vai levar a casa, somos alvo de mais uma abordagem popular na paragem.

 

Uma mulher afro-americana, possivelmente já na casa dos 70 anos, sai connosco e carrega consigo um enorme saco de plástico preto que parece transportar toda a sua roupa. O motorista indica-lhe qual é o autocarro que tem de apanhar, do outro lado da rua, e abandona-a à sua sorte. Nós sentamo-nos. Menos de um minuto depois, vem ter connosco e pede-me para a ajudar a levar o saco até à paragem do outro lado. O nosso novo elétrico já estava no cruzamento mas seria impossível dizer que não, mesmo que o seu inglês fosse muito difícil de compreender. Os estrangeiros costumam dizer que nós, portugueses, sabemos receber turistas como ninguém e agora, em Nova Orleães, parecíamos estar a querer cumprir a tradição, tão longe de casa e com os locais.

 

Não consegui perceber se a mulher era sem-abrigo. Pareceu-me mas não senti capacidade para fazer conversa. A falta de dentes (ou mesmo de uma dentadura) tornava as suas indicações sobre o sítio onde queria que deixasse o saco mais impercetíveis. Percebi o agradecimento, comprovei o alívio nos olhos, mas nada mais do que isso. Quando voltei, o elétrico já tinha fugido. Foi então que a Sarah me contou o que outro homem tinha feito por nós. Ao assistir a toda a situação, percebeu que o favor feito ia fazer com que perdêssemos o elétrico. Entrou, falou com o motorista e explicou a situação. A Sarah contou-me que fez o possível. Que o elétrico adiou o mais possível o arranque e, mesmo já depois de andar, fê-lo da forma muito lenta, tentando ver se eu já estava de regresso. Não cheguei a tempo mas fiquei feliz ao saber a história, como se estivesse a fazer parte de uma cena do filme Favores em Cadeia (Pay it Forward) de 2000.

 

Fechar com a chave de ouro

 

O plano inicial tinha reservado a visita ao museu da II Guerra Mundial para o último dia. Como esse capítulo já estava riscado do livro de viagem, tivemos oportunidade para fazer aquilo que mais gostamos: estar na cidade como um local, repetindo os sítios que mais gostando e criando a nossa própria rota gastronómica.

 

Fomos tomar o pequeno-almoço ao Café du Monde – desta vez com direito a estarmos sentados numa cadeira (ao fim-de-semana é praticamente impossível mas num dia da semana, chegando cedo, é fazível) – e depois disso seguimos para o centro comercial que fica na margem esquerda do Mississippi. Não para comprar alguma coisa, mas sim para estarmos na esplanada que tem com uma vista privilegiada sobre o rio.

Jambalaya e dois tipos de gumbo

Quando chegou a hora do almoço, fomos finalmente experimentar jambalaya e dois tipos diferentes de gumbo. Passava pouco do meio-dia e a empregada enganou-se no nosso perfil. Ali, tão perto da Bourbon Street, meio-dia é quase de madrugada e quem está acordado tem uma grande probabilidade de estar a recuperar do que bebeu durante a noite. Depois de uma pequena brincadeira – inocente – de dizer que a Sarah estava com uns grandes reflexos mesmo de ressaca (pela forma como conseguiu segurar a máquina fotográfica, impedindo-a de se escancarar no chão), disse-nos que o que tínhamos pedido era mais do que suficiente para aquela “hora da manhã”.

 

A dinâmica deste dia foi diferente. Em vez de continuarmos na rua até ficarmos cansados, decidimos explorar um pouco mais a zona do French Quarter, espreitar as montras de lojas e vudu, antes de irmos para casa dormir um pouco. Só voltámos a sair ao final da tarde, quando o sol já não nos batia de cima e o tempo estava ligeiramente mais agradável. O plano estava definido: passar por uma mercearia recomendada para comprar um po’ boy de camarão, ir até ao Café du Monde buscar beignets (sim, outra vez!) e seguir para o passeio junto ao Mississippi enquanto comíamos.

Foto de despedida no Mississippi

Fechámos o dia e a estadia em Nova Orleães de forma perfeita. Pela primeira vez o calor tinha deixado de ser insuportável, corria uma brisa agradável, as cores pareciam perfeitas e estávamos a comer o que mais tínhamos gostado. Deixou saudades exatamente por isso. De fora destes dias ficou uma exploração mais intensiva ao "Cajun country", a zona tradicionalmente francesa do Louisiana, e aos seus pântanos - as temperaturas (e o medo de jacarés) falaram mais alto.

 

Ah, e sim, é possível passar quatro dias em Nova Orleães sem engordar. Parece que andar uma média de nove, dez quilómetros por dia com aquele tempo consegue anular quaisquer excessos que cometamos a comer. Impossível ser melhor.