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atlas de bolso

travel blog

Qua | 12.12.18

Salem - um sábado passado entre bruxas

 

Seguindo a nossa mais recente tendência, quando decidimos ir a Boston passar um fim-de-semana grande em novembro, achámos por bem incluir uma visita a outra cidade. Pela proximidade e facilidade de transportes, e pela data em que fomos – logo depois do Halloween – escolhemos Salem.

Salem ao pôr do sol

Situada a pouco mais de meia hora de comboio de Boston, a cidade é quase automaticamente associada a bruxas, não há como fugir. Grande parte dessa associação vem dos infames Salem Witch Trials (Julgamentos das Bruxas de Salem, em tradução livre) de 1692, em que 19 pessoas foram condenadas à morte por enforcamento, e uma outra pressionada até à morte (é mesmo isso que acabaram de pensar), por estarem envolvidas em bruxaria. E Salem sabe capitalizar essa história, com vários monumentos, lojas e museus alusivos ao tema (as equipas do liceu local chamam-se Witches, Bruxos).

 

Mas a cidade é muito mais do que isso. Foi, historicamente, um porto da maior importância até que os navios, demasiado grandes, deixaram de poder atracar nas suas águas rasas; tem um museu, o Peabody Essex Museum, considerado um dos melhores museus dos Estados Unidos (tem um café e um wifi muito bons); tem aquele que foi considerada “o melhor bairro para compras” do estado do Massachusetts, em 2012; e é muito gira.

Salem é... uma cidade gira

A nossa visita começou de manhã e, tal como já tínhamos feito em Portland, a primeira paragem foi para abastecimento. Mal sabíamos nós que o brunch de fim-de-semana é uma instituição na cidade e que, ainda por cima, tínhamos escolhido um dos “spots” mais na moda: o Ugly Mug Diner. Valeu a pena a espera de 40 minutos para umas maravilhosas panquecas e french toasts (ia escrever fatias douradas, mas chamar “àquilo” fatias douradas seria um insulto aos fins-de-semana da minha infância e aos pequenos-almoços com a minha avó), mas ficámos desiludidos com as nossas canecas. Não eram assim tão feias.

 

Depois de bem alimentados, seguimos caminho pela Essex Street, com a paragem obrigatória junto da Bewitched Sculpture. Até chegar ao Peabody, o que não faltam são lojas e lojinhas que evocam o espírito “maquiavélico” associado à cidade, inclusivamente na Wicked Good Books, “a” livraria lá do sítio.

 

O Memorial relativo aos Salem Witch Trials foi a nossa paragem seguinte, e o primeiro verdadeiro confronto com a violência com que ali – e um pouco por toda a costa leste dos Estados Unidos, como aconteceu noutras geografias – foram tratados os suspeitos de práticas de feitiçaria. O banco com a referência a Giles Corey, e o seu “pressed to death”, é das memórias que provavelmente perdurará.

Salem Witch Trials Memorial

Salem, num move “a la Boston”, tentou criar o seu próprio freedom trail: ali, trata-se de uma linha vermelha pintada no chão que nos leva a vários pontos de interesse na cidade. Não são necessariamente do mesmo tempo, ou do mesmo assunto, e foi assim que passámos do memorial para a frente costeira e demos com os monumentos ligados ao Salem Maritime Historic Site.

 

Estava frio e a proximidade com o mar, sem construções que bloqueassem a brisa, tornava o passeio menos agradável do que poderia ser. Ao mesmo tempo, a neblina criava um ambiente fantasmagórico, que não nos permitia ver a costa do lado de lá, mas que tornava tudo muito propício àquela visita. Ficou a vontade de calcorrear a costa com os seus edifícios antigos e históricos, num dia de sol – mas talvez aí nem nos lembrássemos que estávamos em Salem.

Nós somos mais giros que a vista, ou não?

The House of Seven Gables, cujo romance com o mesmo nome a fez famosa (A Casa das Sete Empenas é o nome em português) foi a nossa visita seguinte; hoje, a casa, uma das mais antigas da zona, é um museu que tenta dar grande uso ao livro que lhe deu fama.

 

Foi mais ou menos nesta altura que a chuva começou a dar sinal e, tentando fugir, demos de caras com o Museu das Bruxas de Salem. Não tínhamos uma imensa vontade de visitar, é verdade. Mas o “Que raio, se estamos em Salem e não vemos nada de bruxas, o que estamos aqui a fazer?” foi mais forte. O problema é que, para fugir à chuva, quase todos os visitantes tiveram a mesma ideia. Acabámos por conseguir bilhetes para a visita que começava cerca de uma hora depois e, até lá, fomos almoçar.

 

E, meus amigos, se não prestaram atenção a mais nada, aqui devem ler tudo com cuidado redobrado: bendita a hora em que visitámos a New England Soup Factory, mesmo a horas totalmente impróprias para almoço. Aquele New England Clam Chowder era de chorar de felicidade por termos tido a oportunidade de o experimentar. É verdade que não somos experts, mas já experimentámos umas quatro ou cinco variedades e nenhuma delas chegou perto daquela que ali nos serviram. Se alguma vez forem a Salem, digam que vão daqui.

Museu das Bruxas de Salem

Seguiu-se então o Museu das Bruxas, muito mais interessante do que se poderia pensar à partida, e agora já com um céu azulíssimo como pano de fundo. A ideia de que um panorama favorável e uma acusação a um bode expiatório podem levar a atos que pensaríamos impossíveis noutras alturas é o mote de todo o museu, que parte da história de 1692 para nos mostrar que “as bruxas” continuam presentes. Só que tomam formas diferentes ao longo dos tempos.

 

Com o frio a apertar, o final da tarde foi passado entre mais lojas, mais monumentos e mais comida: o calor de um crepe é sempre a receita certa para terminar um dia de passeio. A estação de comboio está mesmo ali à mão de semear e, em menos de nada (talvez um bocadinho mais do que isso, cortesia do atraso no comboio) estamos de volta a Boston.