Saltar para: Post [1], Pesquisa e Arquivos [2]

atlas de bolso

travel blog

Seg | 22.10.18

Três dias em Atlanta entre cultura e direitos humanos

Atlanta foi a cidade que mais me surpreendeu na viagem que fizemos ao sul dos Estados Unidos. Não sou fã de The Walking Dead e não esperava muito, ou nada de especial, desta cidade que não conhecia. Só sabia que não ia conseguir fugir às muitas árvores e aos mosquitos - confirmadíssimo.

 

(Also available in English)

 

 Ao contrário dos planos para Nova Orleães e Miami, que estavam um bocadinho na nuvem, o itinerário para a capital do estado da Geórgia (sim, nós contamos em quantos estados dos EUA estivemos) estava bem definido. Afinal, com apenas três dias para aproveitar, não havia tempo a perder.

 

Dia 1, introdução à vida e história de Martin Luther King

 

Chegámos de manhã a Atlanta e tivemos a sorte de podermos instalar-nos logo naquela que ia ser a nossa casa. Este airbnb (se nunca experimentaram podem inscrever-se na plataforma e receber crédito para uma viagem), a dois passos do Martin Luther King Historic District, deu o mote às visitas do primeiro dia.

Martin Luther King Jr. Historic Center 

Depois de um descanso merecido - afinal tínhamos saído da cama às três da manhã - rumámos em direção ao parque nacional Martin Luther King, Jr., dedicado à vida do ativista e à luta pelos direitos civis, muito ligada à história da cidade. Esse foi o primeiro ponto para explorar o "Historic District", onde estão integrados vários edifícios das redondezas.

 

Os mais interessantes são, sem dúvida, a casa onde nasceu Martin (cujo nome original é Michael...) Luther King e o King Center, um conjunto de espaços interiores e exteriores que convida à contemplação e introspeção, e onde se encontra o túmulo de MLK.

 

Os bilhetes (gratuitos) para visitar a casa são levantados no Visitor Center, que deve ser a primeira paragem para a vossa exploração dos arredores. Depois, demorem-se nos memoriais e nos jardins e arranjem toda a força que tiverem para lidar com o que vão ver e ouvir sobre os movimentos civis, ali em Atlanta e um pouco por todo o sul dos Estados Unidos. 

Casa onde nasceu MLK

Se andarem por aí e a fome apertar, o Sweet Auburn Curb Market é uma boa opção - além de mercado tradicional, com produtos frescos, tem também vários sítios para fazer uma refeição. Os hambúrgueres do Grindhouse Killer Burgers receberam o nosso selo de aprovação.

 

Para quem quer ver uma espetacular vista de Atlanta - mas é mesmo só para ir lá ter um espetacular panorama da cidade e tirar uma foto bonita - ou para os fãs de Walking Dead, que vão certamente reconhecer o horizonte: se ainda tiverem quilómetros disponíveis nos pés, subam mais duas ruas até à Jackson Street Bridge e... voltem para trás. Mas vale a pena.

Downtown Atlanta

 

Dia 2, do consumismo americano (e mundial) aos direitos humanos

 

Já tínhamos decidido que o segundo dia ia ser dedicado a museus. Quem nos conhece sabe que somos esquisitos com a coisa, mas há uns quantos que nos conseguem arrebatar (raramente são de arte, já agora). Em Atlanta íamos com três da cabeça, e nenhum deles desiludiu.

 

A primeira paragem do dia foi no College Football Hall of Fame, um museu dedicado à versão universitária do futebol americano. Para mim era só mais uma forma que o Rui tinha de meter um bocadinho de desporto no meio dos nossos dias, não esperava mais do que isso. Na verdade, é um edifício cheio de pequenas surpresas e histórias - a skill zone, onde podemos experimentar chutar aos postes da linha das 15 jardas (mais ou menos 14 metros) ou fazer um passe a la quarterback, é apenas uma.

College Football Hall of Fame

O museu está feito de forma a contar-nos a história do jogo, das grandes rivalidades, dos momentos mais significativos, dos melhores jogadores, e fazer-nos perceber a importância que este desporto tem nos Estados Unidos. Esqueçam um jogo de NBA com adeptos mais entusiásticos: no College Football é que as pessoas perdem a cabeça. Resultado? Eu saí de lá a perguntar ao Rui que equipas jogavam em Boston na nossa próxima visita, cheia de vontade de ver a coisa ao vivo.

 

Saídos do Hall of Fame, fizemos uma paragem rápida para comer na zona de restauração da sede da CNN, em remodelação na altura, antes de seguirmos para o World of Coca-Cola. Antes de mais, um disclaimer: eu não bebo Coca-Cola. O Rui também não, na maioria das vezes. Não foi garantidamente por qualquer fanatismo por esta bebida que decidimos que este museu havia de ser parte da nossa visita.

 

A verdade é que a Coca-Cola é uma parte fundamental da cultura pop americana, e mundial, e não havia nenhuma boa razão para não conhecermos um pouco mais da sua história e presença. Criada numa farmácia em Atlanta, a bebida que todos conhecemos é a estrela principal neste "mundo", mas está bem acompanhada por outras bebidas da companhia - e que podem ser experimentadas numa sala de "degustação" com sabores do mundo inteiro. Antes disso, há espaço para conhecer a história, as mascotes, os anúncios mais emblemáticos, uma mini-cadeia de produção (parada na altura da nossa visita devido à avaria de uma peça) e o cofre onde, dizem, está guardada a fórmula secreta. Who knows.

World of Coca-Cola

Center for Civil and Human Rights (Centro para os Direitos Civis e Humanos) foi a última paragem de um dia bem preenchido e, para mim, o mais marcante. As duas horas que tivemos antes da hora de fecho do museu não foram, nem de perto, nem de longe, o suficiente para retirar dali tudo o que podíamos.

 

É na ala inicial, dedicada ao movimento americano de Direitos Civis, com um óbvio foco na luta anti-segregação, que encontramos a exposição mais comovente. Às menções a Martin Luther King, Jr. ou a Rosa Parks juntam-se histórias de outros, mais ou menos desconhecidos, que também mudaram a história. E ouvem-se, com um nó no estômago, os testemunhos dos segregacionistas. Mas é mais à frente, numa experiência criada para simular o que os negros tinham de suportar nos seus protestos em restaurantes, que nos sentimos postos à prova - uma mulher ao nosso lado não conseguiu aguentar e saiu lavada em lágrimas.

 

O andar de cima é dedicado ao movimento global de Direitos Humanos e faz-nos pensar duas vezes nos nossos consumos e nas nossas vidas. Apesar da visão muito americanizada de algumas partes da exposição, a perspetiva global que obtemos sobre o que são direitos humanos - da saúde à acessibilidade, passando pelos que associamos mais diretamente a esta luta, como os direitos das mulheres ou da comunidade LGBT - é de grande valor. Nem de propósito, um dos "heróis dos Direitos Humanos" aí presentes é o recém-galardoado com o Nobel da Paz, Denis Mukwege (a viagem foi feita antes do anúncio do prémio).

 

Center for Civil and Human Rights

A exposição sobre Martin Luther King, Jr., com muitos dos seus documentos pessoais, torna-se um pouco secundária depois da visita ao MLK Historic District, mas pode ser um bom ponto de partida se ainda não tiverem tido uma introdução à vida e obra do ativista.

 

Dia 3 - Entre cemitérios, parques e bolas

 

O final de tarde e a noite do último dia que teríamos em Atlanta já estava reservado para o jogo dos Braves, mas faltava preencher o resto do tempo. As opções eram inúmeras: afinal, a cidade é monstruosa, apesar do seu compacto centro. Uma das que mais me chamava era um passeio por Buckhead, zona histórica mas muito afastada do centro. Little Five Points, a zona trendy, também podia ser opção. No entanto, decidimos manter-nos fiéis às nossas raízes e tirar um dia para passear em parques (que não faltam por aquelas bandas).

Campa de Bobby Jones no Oakland Cemetery

O primeiro destino do dia foi o Oakland Cemetery. Fundado em 1850, é um espelho das muitas faces de Atlanta, sendo o local de sepultura de ilustres desconhecidos e de outros, mais famosos, como o golfista Bobby Jones ou a escritora Margaret Mitchell. Nas várias alterações que foi sofrendo, uma das mais drásticas foi a trasladação dos restos mortais de escravos e negros para uma zona distinta, e mais afastada, do cemitério. É só mais uma expressão da realidade de Atlanta.

 

São os carvalhos (oaks) que dão nome ao cemitério e trazem os maravilhosos esquilos que nos fazem companhia ao longo da caminhada. Só falta mais sombra, num dia de verão abrasador, para a visita ser fantástica.

 

Daí seguimos para o Ponce City Market, totalmente renovado e... totalmente hipster. A zona de restauração é imensa, mas não confusa - mesmo em plena hora de almoço - e permite-nos repor as calorias perdidas com o sol. O mercado é também um dos pontos de entrada no Eastside Trail, o primeiro troço do Beltline (um projeto que pretende dar a volta à cidade com um espaço pedonal e ciclável) a ficar concluído. É para aí que nos dirigimos - mas não sem antes experimentar o colorido piano que está à nossa disposição. Há mais um, mais à frente, à chegada ao Piedmont Park.

Escultura no Eastside Trail

Mais uma vez, o nosso maior problema com o Eastside Trail é a falta de sombras. Do Ponce City até ao Piedmont Park são menos de três quilómetros, mas o calor dificulta a tarefa de seguir por esta antiga linha ferroviária, agora requalificada. Quando finalmente chegamos, um banco de jardim à sombra parece quase um oásis.

 

O Piedmont Park é um dos maiores espaços verdes em Atlanta - uma cidade que não tem falta deles - e parece um local privilegiado para eventos. Localizado na zona da Midtown, tem novamente uma vista espetacular para o centro da cidade, que podemos conciliar com o imagens do enorme lago central. O problema? Um cheiro insuportável que nos obrigou a encurtar o passeio. Mais uma vez, o conselho: não visitem em setembro. 

Vista de Atlanta do Piedmont Park

Depois de uma mini-exploração da zona, seguimos para Cumberland, onde está situado o estádio dos Braves. A viagem de autocarro dura cerca de uma hora e leva-nos pelo meio do que parecem florestas com casas no meio. É uma visão da típica Atlanta, onde a maioria das pessoas mora, que não teríamos de outra forma.

 

O jogo dos Braves, sobre o qual vão poder ler noutro post, encerrou os nossos dias em Atlanta. E desta vez conseguimos ver um jogo ao ar livre sem acabar com um enorme escaldão no nariz. O único presente que levei de Atlanta foram duas picadas de mosquito que não vou querer reviver.

À porta do estádio dos Atlanta Braves