Saltar para: Post [1], Pesquisa e Arquivos [2]

atlas de bolso

travel blog

Qua | 12.09.18

Um desafio olímpico em Estocolmo

Estádio Olímpico de Estocolmo

O caminho para o Estádio Olímpico de Estocolmo começou a desenhar-se na véspera, em Helsínquia. A TAP tinha feito asneira nos horários dos voos e tinha-nos antecipado o voo de regresso da Suécia para uma hora em que não conseguiríamos chegar depois de fazer o cruzeiro de regresso da Finlândia.

 

(Also available in English)

 

Depois de uma troca de mensagens no Twitter, a solução passou por encontrar uma escala em Frankfurt que, entre outras coisas, nos permitiria passar mais umas horas em Estocolmo no dia seguinte. Visitar o estádio que acolheu os Jogos de 1912 não estava entre as nossas prioridades mas o tempo extra fez com que a oportunidade fosse criada. E ainda bem.

 

Nunca pensámos nisso como um verdadeiro objetivo mas começámos a perceber que ao longo das nossas viagens tem havido espaço para visitas a estádios olímpicos. O de Berlim foi mesmo um dos pontos mais interessantes da viagem, mas também já passámos pelo de Los Angeles, pelo de Pequim e pelo de Barcelona. Neste fim-de-semana específico, a ideia até passava por visitar o de Helsínquia mas estava tudo em obras e não conseguimos mais do que ver as estátuas de Paavo Nurmi e Lasse Viren do lado de fora.

Estátua de Lasse Viren em Helsínquia

O de Estocolmo é diferente de todos os que tínhamos visto até então. Desde logo por ter mais de 100 anos mas também por ter mantido muito da sua essência da altura. As bancadas são ricas em madeira, o estádio tem uma capacidade muito limitada e a própria forma como os lugares estão dispostos aponta para uma maneira diferente de assistir às emoções.

 

No meio de um quarteirão, também com obras à mistura, encontrar uma forma para entrar foi o mais complicado. Não é uma visita turística, não tem lojas, não tem visitas guiadas e todos os portões que fomos encontrando estavam fechados. Num dos lados, conseguíamos ver a relva e a pista de atletismo mas esbarrávamos nos portões giratórios que só rodavam para permitir a saída. Nada de entrada.

 

Lá dentro, vários serventes movimentavam-se com relativa descontração, ignorando que procurávamos uma forma de entrar. Fizemos uma pseudo volta olímpica. Procurámos por entrada a meio, fomos tudo até à esquerda e depois recuámos até ao início para tentar melhor sorte do lado direito. Ao fundo, percebemos que havia quem estivesse a entrar. Era a nossa oportunidade.

 

Sentimos que não devíamos estar ali. Quem tínhamos visto parecia estar pronto para ir correr e nós tresandávamos a turistas. Fizemos um pacto: vamos ser descontraídos, continuar a andar, não parecer perdidos, ir à confiança e fazer transparecer que sabemos perfeitamente o que estamos a fazer. Et voilà, uns minutos depois estávamos no meio das bancadas, enquanto vinte a trinta atletas ouviam as recomendações de um responsável antes de começar uma sessão de treino.

 

Viagem pelo passado

As bancadas do Estádio Olímpico de Estocolmo

A estrutura impressiona por parecer tão antiga como na verdade é. Há suportes de madeira por todo o lado e estão perfeitamente integrados naquele ambiente, com uma pista de atletismo a brilhar e um relvado bem tratado. Conseguimos perceber onde é a tribuna de imprensa e por toda a bancada há a repetição dos mesmos brasões: uns apontam claramente para a coroa sueca, os outros deixaram-nos na dúvida.

Brasões suecos

Andamos pela bancada – para longe do grupo de atletas – e antecipamos a saída pela porta da maratona. Pisamos a pista de atletismo e, naquele momento, ao olhar para a fasquia do salto em altura, sinto uma vontade incontrolável de voltar a tentar.

 

No secundário, tinha passado horas a bater pequenos recordes pessoais e ali, naquele momento, a fasquia parecia estar a uma altura perfeitamente ultrapassável. Mas não saltava há mais de 15 anos, não estava com o calçado adequado e… provavelmente nem devia estar ali. Saltar para derrubar seria um risco e uma vergonha demasiado grande.

Estádio Olímpico de Estocolmo

 A surpresa chegou no momento da saída. Estou farto de ouvir falar da história de Francisco Lázaro, o corredor português da maratona que morreu durante a prova, precisamente em Estocolmo, depois de ter barrado o corpo com graxa.

 

O momento está marcado na história mas nunca pensei que pudesse haver uma placa olímpica de homenagem, com versão sueca de um lado e portuguesa de outro. Ficamos a saber que mais de 20 000 participantes se juntaram após a morte numa sessão comemorativa no estádio num programa que «incluía a prática de modalidades desportivas, canções e música» e onde «foi lançada uma grande queima de fogo-de-artifício, que terminou com um grande “L” de Lázaro em letra de fogo nos céus da noite».

 

A placa conta também que a sessão angariou 14 mil coroas, «uma grande soma» para 1912 (1362 euros), numa verba que foi dada «a sua jovem esposa e o seu filho, nascido após a partida de Lázaro para os Jogos de Estocolmo».

 

Francisco Lázaro foi a primeira vítima mortal dos Jogos Olímpicos modernos.

Placa em memória de Francisco Lázaro

 

 

 

Guardar para ler depois:

estádio estocolmo no pinterest