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atlas de bolso

travel blog

Sex | 07.12.18

Um dia em Portland (Maine)

 

Como já vos dissemos, a primeira vez que estivemos em Boston juntos foi por apenas quatro dias, e com um frio de rachar, antes de nos pormos a caminho para atravessar os Estados Unidos no California Zephyr. Dessa vez ficou não só a vontade de voltar, com um tempo melhorzinho, mas também um “saldo” de 500 euros, cortesia da Air France por nos ter deixado em terra quando voltávamos, que aproveitámos para comprar viagem de regresso a Boston assim que chegámos a Lisboa.

 

E pronto, estávamos de volta a Boston em setembro de 2017. Claro que o nosso objetivo era ver a cidade com novos olhos, melhor tempo, repetir alguns locais e conhecer outros, mas rapidamente foi crescendo uma nova ideia: que tal aproveitar para visitar outra cidade? A nossa viagem a Boston transformou-se numa viagem à Nova Inglaterra quando incluímos um dia em Portland (Maine) no nosso planeamento.

Portland (Maine)

Só para esclarecer: não tínhamos nenhuma vontade especial de visitar Portland. Pensámos em ir a Providence, Salem ou explorar o Vermont – no final, a comodidade dos transportes até à maior cidade do Maine, e o que fomos lendo sobre ela, falou mais alto.

 

Saímos de Boston às 8 da manhã e, num momento nada típico nosso (a sério), chegámos à estação em cima da hora de partida do autocarro. Depois de uma corrida, lá ocupámos os nossos lugares para a viagem de duas horas até Portland – o exercício até seria bom para a nossa primeira paragem programada na cidade: o Becky’s Diner, uma instituição do pequeno almoço da cidade. As fotografias das panquecas fizeram-nos aguentar a viagem, os três quilómetros a andar até lá desde a estação e a espera que tivemos de suportar. Não desiludiu, mas duas doses alimentariam uma família de seis.

Panquecas do Becky's Diner

Apesar de termos feito o nosso trabalho de casa, e levarmos no telemóvel um Google Maps cheio de estrelinhas, não tínhamos grandes planos para depois do pequeno (grande) almoço. Assim, decidimos manter-nos fiéis a nós próprios e fomos passeando ao longo da costa, até depararmos com um dos vários postos de turismo de Portland. Decidimos entrar para pegar num mapa, mas a coisa não ia ser assim tão fácil.

 

O Rui estava com uma camisola dos Celtics que começou por ser um chamariz de conversa. De repente, uma senhora que deveria ter facilmente 80 anos e que trabalhava no posto começou a falar connosco e a contar-nos a sua vida. Disse-nos o seu nome de casada - Julie qualquer coisa - e contou, a muito custo, o que sofreu enquanto criança à conta do nome de família: Painchaud. Pãoquente, numa tradução literal. Adorou saber que éramos portugueses e recordou que em tempos, há várias décadas, tinha conhecido uns que lhes tinham mostrado as maravilhas da gastronomia portuguesa. Durante aquelas trinta minutos de conversa houve dois denominadores comuns: por que é que nós, portugueses, tínhamos decidido ir ali, e qual era o nome daquele prato que tinha comido há tantos anos e que lhe tinha deliciado o paladar. De repente, a meio do diálogo, soltou um "AH! Feijoada!".

 

Saímos finalmente do centro de informação, já depois de ouvir algumas recomendações da nossa nova melhor amiga, e continuámos pela costa, até aos vários parques de East End, a ponta da península que forma o centro da cidade de Portland. O caminho, ao lado do carril de um pequeno comboio turístico que ajuda a poupar os pés dos viajantes, é fácil de seguir e parece ser também um ponto muito atrativo para os locais. Aquela zona junto ao mar serve para admirar as pequenas ilhas formadas junto à costa, correr, passear os cães ou simplesmente para aproveitar um dos inúmeros bancos de jardim ali instalados.

East End de Portland

É também nesta zona, não muito longe de uma enorme colina muito bem arranjada, com bancos e relva bem tratada, que fica o Portland Observatory. Normalmente, o Rui tem de me convencer para tudo o que implica alturas e desta vez não teve sucesso. Foi sozinho, até lá acima, ver o que rodeia Portland e ter uma vista ainda melhor sobre as ilhas que fazem companhia àquela terra. Uma chamou a atenção: parecia um género de Alcatraz, que tinha sido um dos seus locais favoritos de São Francisco. Lá em cima, havia um monitor à espera de responder a todas as dúvidas: tratava-se da House Island e parecia-se com uma prisão porque era, na verdade, o sítio onde foi instalado o Fort Scamell, uma fortificação que respondeu à necessidade de prevenir ataques durante a guerra pela independência.

 

Portland, ou pelo menos o seu centro histórico, é uma cidade gira. Os edifícios são feitos com o mesmo tijolo vermelho que encontramos em tantos construções da zona, e a proximidade ao mar está sempre presente, seja nos motivos que decoram as montras das lojas, nos sons que se ouvem ao longe, no tempo, húmido, costeiro e, claro, nos cheiros. Aliás, os cheiros de lagosta a cozer são provavelmente a memória mais forte que guardo de Portland. E claro que tivemos de experimentar um lobster roll para o nosso almoço (foi mais um lanche, vá).

Lagostas, lagostas everywhere!

A tarde foi preenchida com um passeio pela Congress Street, a avenida principal onde se encontram os principais monumentos da cidade. Foi aí que encontrámos aquilo que provavelmente não esperávamos: uma quantidade imensa de referências aos imigrantes que chegaram à cidade nos séculos XIX e XX. Num país construído por imigrantes, como são os Estados Unidos, esta referência não é tão comum como se poderia pensar.

 

A visita a Portland, não tendo sido a mais extraordinária que fizemos – ou podíamos fazer –, lançou as bases para o que viria a ser uma tendência cada vez mais nas nossas viagens: aproveitar para fazer uma “day trip” a um sítio próximo. Em Boston, na vez seguinte, visitámos Salem, a terra das bruxas.