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atlas de bolso

travel blog

Qua | 20.02.19

Uma semana pelas Caraíbas - de cruzeiro

MSC Armonia

Confesso que tinha emoções contraditórias em relação ao nosso cruzeiro nas Caraíbas. Claro que estava entusiasmada - ou não o teria marcado e oferecido ao Rui como prenda de anos - mas, ao mesmo tempo, a incerteza sobre como correria aquela semana punha-me ligeiramente de pé atrás.

 

Tentei, quase exaustivamente, ler tudo o que consegui sobre o assunto. Corri fóruns e blogues especializados e li as várias notícias sobre a chegada do nosso barco (desculpem, navio) a Miami, para a sua viagem inaugural nesta rota que passava por Havana. Falei com quem já tinha andado nestas andanças. No final, no entanto, não consegui afastar a sensação de que ainda havia muito inesperado - a solução foi abraçar esta viagem como o que ela sempre foi: uma semana de descanso.

 

Se não gostasse dos portos, se o desembarque fosse caótico, se o tempo fosse apertado, se o sol não brilhasse, ia sempre ter muitas horas para dormir e um livro para me fazer companhia durante o tempo em que estivesse acordada.

 

Miami

 

Como todos os especialistas aconselham, chegámos a Miami no dia antes da partida (e agora que escrevo este texto, penso: ainda bem; a informação que nos deram era de que o soltar das amarras era às 19h00, quando afinal foi uma hora mais cedo). Nunca se sabe bem qual o humor das companhias, e os voos para atravessar o Atlântico não são assim tantos por dia. Já tínhamos estado na cidade em setembro, e não íamos com muito tempo para turismo, por isso decidimos que as horas passadas por lá iam ser o início real das férias: em paz e sossego.

 

Reservámos um hotel muito perto do porto, para onde fomos diretos do aeroporto - mesmo a tempo de ver o início da Super Bowl - e, depois de uma noite bem dormida, aproveitámos a manhã para um passeio antes de rumarmos ao terminal F, de onde sairia o MSC Armonia, a nossa boleia para a semana.

 

Fizemos o check-in por volta do meio-dia (abençoada a hora, porque 20 minutos depois o balcão onde encontrámos meia dúzia de grupos a embarcar estava afogado em pessoas), sem saber quando poderíamos entrar. As boas surpresas começaram logo aí: o barco já estava a receber os passageiros. Entrámos, fizemos uma exploração rápida para criar um mapa mental do barco (que se apagou rapidamente) e assentámos arraiais num dos bares, à espera que o nosso quarto ficasse pronto. O resto do dia foi passado entre a piscina, o adeus aos Estados Unidos, o buffet - o nosso melhor amigo, e... o exercício de segurança obrigatório.

Exercício de segurança obrigatório

Durante vários minutos, ficámos presos no nosso ponto de evacuação - bastante explícito no cartão que abre a porta do quarto - e ouvimos as instruções em várias línguas - inglês, italiano, castelhano, francês, alemão e português - sobre como se põe o colete salva-vidas. E... foi só isto. Com coletes postos e uma meia hora depois, recebemos guia de marcha e ficámos novamente independentes. Sugestão: sejam proativos e levem logo os vossos coletes (estão no quarto) para o exercício, em vez de estarem a descer e subir escadas desnecessariamente.

 

Dia de Navegação

 

O primeiro dia a sério do nosso cruzeiro era também aquele que eu mais temia - não ia haver porto para atracar. Estávamos confinados àquele espaço, com os seus 2500 passageiros, durante mais de 24 horas. Os meus receios eram completamente infundados - como dizia o Rui, já no final da semana, isto para ser perfeito era um dia de navegação entre cada porto novo, para descansar.

A primeira aurora no cruzeiro

Ainda com o jet lag a bombar forte, acordámos antes das seis da manhã. O nascer do sol (de que nos mantemos sempre a par com o diário de bordo, entregue todas as noites no nosso camarote, onde além da previsão meteorológica estão descritas todas as atividades do dia) estava marcado para um pouco antes das sete, o que calhava mesmo bem. O Rui ficou a preguiçar e eu levantei-me, preparei-me, tirei as fotografias possíveis no 12.º andar - porque nem num barco as vertigens me abandonam - e rumei ao meu primeiro pequeno-almoço. Uma semana depois, ainda é disso que tenho saudades. E do sol. E do calor.

 

A piscina não estava incrivelmente cheia: por um lado, porque há uma certa população que nunca parece sair do casino e do teatro e, por outro, porque o vento constante que se faz sentir impede que se tenha muito calor - e, portanto, que se ocupe a piscina a tempo inteiro. O maior problema de um cruzeiro, pelo menos às oito da manhã, é perceber onde queremos pôr as toalhas. Ali levamos com o spray das crianças, ali com a sombra da varanda; ao segundo dia, já estávamos profissionais. E, apesar de um ou outro 'marcador' de cadeiras (cof cof portugueses e italianos), a verdade é que nunca nos faltaram espreguiçadeiras.

 

Entre a dose muito necessária de vitamina D - que este inverno em Portugal tem estado muito pouco simpático - e o nosso querido buffet, o dia passou a correr. Às seis e meia jantámos e ainda não eram oito da noite quando adormecemos. Se isto não são férias a sério, não sei o que serão.

 

Montego Bay (Jamaica)

 

A primeira paragem do nosso percurso foi em Montego Bay, Jamaica. E a ideia era clara: só queríamos ir à praia. Apesar de não ter o trabalho de casa muito bem feito, o meu guia de viagem - que foi espetacular nas Caimão, mas já lá vamos - dizia-me que o sítio para estar era a Doctor's Cave Beach, e para aí apontámos agulhas.

Praia na Jamaica foi um excelente aperitivo

O problema em Montego Bay é que a maioria das praias não são públicas e, por isso mesmo, são de acesso pago. Isso transformou a nossa paragem na Jamaica na mais cara de toda a viagem - pagámos 14 dólares (ida e volta) por pessoa para ir do barco até à praia – há shuttles à espera dos passageiros assim que o cruzeiro chega e taxistas ansiosos para recrutar clientes no regresso –, mais 6 dólares cada para entrar na praia. Mas depois vimos aquela água e esquecemos isso tudo.

 

Estamos em fevereiro, não esperem banhos tépidos. Apesar de estarmos nas Caraíbas, a temperatura da água vai mudando - nós devemos ter apanhado uns 26 graus: confortável para nadar, mas não necessariamente para ficar quatro horas de molho. Mas aquela cor de água não sofre grandes alterações, e para quem está a ressacar com falta de mar, como nós estávamos, não há melhor. Pelo meio, o bar da praia ia passando músicas de Bob Marley, algo que deve ser constante mas que naquele dia foi mais do que adequado por se tratar do dia do seu nascimento.

 

A nossa paragem devia ser de seis horas mas, numa jogada que foi recorrente em todo o cruzeiro, chegámos mais cedo e tínhamos, na verdade, sete horas atracados. Esse era outro dos meus problemas com o cruzeiro - será que vai saber a pouco? Vamos fazer tudo a correr quando chegarmos aos locais a visitar? A verdade é que não. Para isso, ajudou que só quiséssemos fazer praia - não andámos a correr de um lado para o outro, a tentar aproveitar tudo. Chegámos, demorámos meia hora a chegar à praia, ficámos quatro horas - até nos dar a fome - e voltámos, tranquilamente, duas horas antes da partida do barco, sem sentir que tivéssemos perdido alguma coisa ou sido apressados de alguma forma.

 

George Town, Ilhas Caimão

 

George Town foi a nossa paragem preferida e o sítio onde eu percebi que odeio barcos. É estranho dizer que se gostou muito de um cruzeiro e que se odeia barcos, mas a verdade é que estes navios, com milhares de pessoas, parecem mais um prédio que por acaso está a andar no mar do que um barco. Já os barcos que nos levam até ao porto em George Town - porque a profundidade do mar faz com que o navio tenha de atracar ao largo - são uma história muito diferente. Enfim: conseguirei suportar outra vez aqueles 20 minutos de aflição se, no final, me esperar a 7 Mile Beach.

Monumento às mulheres pioneiras nas Ilhas Caimão

Como foi norma, chegámos antes da hora, e isso aqui jogou muito a nosso favor. A maioria dos nossos vizinhos preparou-se para sair do barco às oito da manhã, tendo ido buscar a sua senha para o barco que fazia a ligação a terra mais cedo. Nós fizemos ao contrário: fomos comer, descansadamente, e às sete e meia tratámos de nos dirigir para a saída. Apesar de só termos senha para o barco número 5, entrámos no primeiro, que a tripulação estava desesperada por encher: os madrugadores das senhas estavam a refastelar-se, longe dali.

 

Ainda não eram oito quando chegámos a terra e, com o tempo meio farrusco, decidimos dar uma voltinha antes de nos fazermos à praia. Havíamos de encontrar um táxi pelo caminho; o que encontrámos, no entanto, foram galos. Há galos em todo o lado, pelo menos na Grande Caimão. Galos nas estradas, galos nos passeios, galos na praia. Um fartote. Foi também durante este passeio que demos com a estação central de mini-bus - porquê ir de táxi quando o autocarro estava mesmo ali à mão?

 

Os bilhetes dos autocarros são 2.5 dólares (ou 2 dólares das Ilhas Caimão) e têm várias rotas. Se pedirem com jeitinho, os motoristas levam-vos ao aeroporto, mesmo quando não faz parte do percurso original - foi assim que fomos dar uma volta extra, em vez de irmos direitos à praia - e, além disso, apanham-vos em qualquer ponto da estrada, com ou sem paragem. Vão dar por eles, porque vos apitam se estiverem descansados a andar na rua.

 

Os amigos que fizemos a voltar para o barco, na Jamaica, tinham-nos falado de uma parte específica da 7 Mile Beach que recomendavam: mais a norte, longe da multidão que ficava logo no início da praia, o trecho em frente ao Calico Jack's Bar and Grill. E nós até pensámos em seguir o conselho, mas o nosso abençoado Lonely Travel falava de uma zona, imediatamente antes, "muito sossegada": Governor's Beach. E era isso que queríamos. Se não gostássemos, andaríamos para norte até encontrar caras conhecidas.

É fácil imaginar um futuro nas Ilhas Caimão

Nunca chegámos a andar até lá - saímos do autocarro em Governor's Beach, demos uns passos para a direita e encontrámos o nosso lugar, perfeito, entre duas áreas reservadas para hotéis. Com as nuvens ainda a tapar o sol, éramos os únicos ali - e mesmo quando o sol começou a queimar-nos a pele, a maior parte das pessoas que víamos passava por nós ao andar para cima e para baixo na praia. Perto, só uma família com três miúdas pequenas, que pareciam estar a aprender a nadar.

 

A 7 Mile Beach é a praia de que são feitos os sonhos. A areia é fina, mas não se agarra demasiado à pele; a água é absolutamente cristalina, e quente; as multidões estão muito longe dali. Durante toda aquela manhã, passada entre mergulhos e conversas, a ideia constantemente presente nas nossas cabeças era: "Quando é que podemos voltar aqui?".

 

Foi com a barriga a dar horas que voltámos: ao chegar à estrada, não esperámos dois minutos pelo autocarro. As notas azuis de dólar das Ilhas Caimão, que nos deram de troco, são o que guardamos como souvenir da nossa ilha preferida.

 

Cozumel, México

 

A minha desorganização desta viagem mostrou-se em todo o seu esplendor em Cozumel. Não tinha feito o trabalho de casa, não sabia onde havia praia e não me apetecia muito sentar-me à porta do Starbucks - que está logo ali à saída quando atracamos em Punta Langosta - para apanhar wifi e procurar. Afinal, Cozumel é uma ilha: quão difícil é encontrar um bocadinho de areia em frente ao mar?

Passeio marítimo em Cozumel

Aparentemente, mais difícil do que parece. Cozumel é um destino de mergulho. As excursões são viradas para isso, os locais oferecem-se para nos levar até aos melhores spots e o meu espetacular guia só falava nisso. Nem uma mençãozinha a uma praia de areia onde pudéssemos aproveitar para dar um mergulho. Decidimos então que, em vez de seguir o conselho dos simpáticos guias turísticos presentes para apanhar um táxi até uma praia, íamos andar pela costa até encontrar um sítio bom o suficiente.

 

Spoiler alert: não encontrámos. Andámos cerca de dois quilómetros para norte, sempre com o mar ali ao lado a fazer-nos pirraça. Passámos pelo ferry para Playa del Carmen, pelas lojas pejadas de turistas, e chegámos finalmente à entrada para o aeroporto. Pelo caminho, três míseros beach clubs, com mais relva que areia, não nos tentaram a ficar.

 

Foi nessa altura que o meu pé decidiu mostrar-me o quão estúpida estava a ser: tinha andado mais do que devia com chinelos de borracha comprados por 1.99 euros. Não ia dar para continuar. Decidimos dar-nos por derrotados e voltar para o barco, mas não sem antes molhar o pezinho - eu não podia sair do México sem pelo menos ter experimentado a temperatura da água. Curiosamente, assim que tomámos essa decisão, o dia ficou exponencialmente melhor.

 

Afinal, estávamos de férias: por que é que tínhamos de nos meter num táxi e andar 10km até uma praia? Tínhamos sol e calor ali mesmo, e a piscina do barco até era agradável - ainda mais, sabemos agora, quando está toda a gente a passear fora do barco. Gostámos tanto da experiência de ter o barco ali só para nós que, dois dias depois, havíamos de repeti-la.

 

Havana, Cuba

 

O nosso percurso tinha, como atração principal, um fim-de-semana em Havana. As restrições de viagens para Cuba, para americanos, são aquilo que se sabe (na verdade, nunca se sabe muito bem, mas pronto), mas, mesmo com o apertar de algumas regras, há progressivamente mais navios a atracarem em Havana vindos dos Estados Unidos. Era o caso do nosso - e a razão de estar de muitos dos nossos companheiros de viagem, que noutras ocasiões não teriam escolhido uma companhia europeia para se passearem nas Caraíbas.

Capitólio cubano é uma marca de Havana

Para nós, Havana era só um final mais interessante para uma viagem que inicialmente ia ser de praia, mas passou a ser também cultural. O problema é que, embarcados em Miami, tivemos de cumprir as regras aplicadas a americanos e inscrever-nos em duas excursões (o equivalente a uma excursão de dia inteiro) que nos iriam levar a conhecer "as pessoas" de Havana. Ora, isto vai radicalmente contra aquilo em que acreditamos - perder-nos nas cidades, ao nosso ritmo, e enquanto queremos.

 

Resignados, e até com uma ligeira esperança de que aquilo podia ser giro, desembarcámos em Havana para a nossa primeira excursão, um tour por Havana com passagem num mercado de artesanato. Já no dia anterior tínhamos percebido que talvez tivesse sido asneira irmos na excursão que a MSC marcou para nós, em português, mas já não havia forma de mudar.

 

Para não batermos demasiado em quem não merece, vou descrever-vos a coisa sucintamente: para quem percebe minimamente castelhano, é muito difícil acompanhar alguém que acha que fala português, mas não fala. O nosso cérebro vagueia muito mais do que devia. Além disso, aquilo que devia ser um tour de Havana foi uma visita a uma loja de rum e a um centro comunitário. Não houve mercado de artesanato (graças aos santinhos todos, digo eu) e a paragem na Praça da Revolução foi em versão express. E isto durante quatro horas. Era garantido que não queríamos voltar ao mesmo no dia seguinte.

 

Assim, no domingo, último dia de cruzeiro, acordámos cedo e estávamos em Havana, por conta própria, antes das oito da manhã - e antes de o calor apertar. Andámos pelo Malecón, explorámos Havana Vieja e descansámos nos bancos do Paseo del Prado. Quando nos cansámos, voltámos ao barco e aproveitámos mais um dia de sol.

 

O que guardo de Havana? A vontade de voltar e a conversa dos cubanos. "De onde são? De Portugal? Tenho lá a minha prima, em Coimbra!" E ela gosta do país? "Sim, está gorda!"

 

A última noite e o regresso a Miami

 

A última noite passada a bordo foi a mais agitada - e ainda bem, porque se a semana tivesse começado assim talvez eu não tivesse passado da Jamaica. As ondas abanavam o navio em todas as direções (a ponto de ter pensado que ia cair ao tomar banho) e, durante a noite, os barulhos do quarto a ranger eram de tal ordem que me impediram de dormir durante horas.

Wynwood Wall no adeus à viagem

A chegada a Miami estava marcada para as sete mas, como habitual, chegámos mais cedo. As nossas mochilas iam connosco, sem precisarmos de ajuda, o que nos possibilitou sairmos do barco assim que nos despachámos - por volta das sete e meia. Em minutos, depois de termos apanhado o trolley gratuito (e vazio) da cidade, estávamos no centro de Miami, a pensar no que fazer à vida durante as horas que tínhamos até ao voo. A solução foi ir deixar as malas no aeroporto e passear até às Wynwood Walls - com uma bela chuvada pelo caminho. O fim que não precisávamos para uma semana de férias espetacular.