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atlas de bolso

travel blog

Seg | 08.04.19

Uma viagem ao futebol dos pequeninos… em Tallinn

 

Começámos a fazer viagens em 2013 e já apanhámos grandes eventos desportivos. Já fomos atrás do último jogo do Kobe Bryant, vimos dérbis de Madrid, jogos do Mundial de râguebi, encontros de futebol americano, basebol, hóquei no gelo e muito mais. Qualquer um deles tem uma legião de fãs que pode soltar um comentário de inveja. Em sentido contrário, quase ninguém nos diz: «Quem me dera ter ido ver esse Estónia-Gibraltar!».

 

Ponto prévio: apesar de termos a fama não somos malucos. Legalmente, pelo menos, apesar de nunca termos sido testados. Fomos a Tallinn em finais de 2016 mas o motivo da viagem não foi ir ver o tal Estónia-Gibraltar de apuramento para o Mundial-2018. Por outro lado, não posso desmentir que assim que soube que ia estar na capital estónia nesse dia, não pensei noutra coisa que não estar nesse encontro.

 

Houve quem lhe tenha chamado doença. Houve quem tenha aproveitado para dizer que é estranho que alguém tenha coragem para ir ver um Estónia-Gibraltar às 21h45 de uma sexta-feira. Depois, as bocas: as perguntas sobre se tinha perdido alguma aposta ou quantos anos tinha apanhado (de castigo).

As fotografias possível do Estónia-Gibraltar

Antes, ao chegar ao estádio, com uma hora e meia de antecedência e depois de cerca de três quilómetros a pé, a movimentação era muito pouca. A bilheteira tinha quatro pessoas, todas do lado de lá. A comprar, apenas eu. Já sabia que a entrada custava 14 euros mas ainda assim não deixou de ser surpreendente o momento em que uma mulher me mostrou a planta do estádio para escolher exatamente onde queria ficar, tal e qual como se faz no cinema. Central coberta, topo coberto, topo descoberto, primeiro ou segundo “anel” era indiferente. O preço era o mesmo.

 

A entrada só se fez depois de uma pequena volta. O suficiente para entrar na loja – com as camisolas de todas as equipas da primeira divisão estónia expostas – e perceber que, após desconto, a camisola da seleção podia ser comprada por 42 euros. Continuando a volta, dei de frente com a zona mista, uma tenda improvisada com cinco ou seis grades, cujo acesso parecia estar à mão de semear para qualquer adepto.

 

Faltava uma hora para o apito inicial, por isso não foi surpresa que as bancadas estivessem praticamente desertas quando entrei. Ainda assim, persistia a dúvida: com aquele tempo, contra aquele adversário, que tipo de assistência teria o jogo? E haveria adeptos de Gibraltar? A brincar, passou-me pela cabeça garantir uma entrada direta para o Watts, ficando sozinho numa bancada a gritar pela seleção do rochedo.

 

Mas não, fiquei perto da bancada mais próxima da saída, junto de muitos estónios. Ser um português a ver um jogo de futebol no estrangeiro no segundo semestre de 2016 era um convite à conversa. E foi precisamente isso que aconteceu quando, sentado no meu lugar, mereci a curiosidade do homem ao meu lado, possivelmente detetando – com razão – que aquele não era o meu habitat natural.

 

Diz-me qualquer coisa impercetível. Peço para repetir. Fá-lo em inglês. Aponta-me para um grupo que passa à nossa frente no relvado e diz que é o primeiro-ministro, não escondendo o orgulho. A partir daí, a conversa desenrola-se e pergunta-me de onde sou.

 

- Portugal.

- Estiveram muito bem no Europeu. Parabéns pelo título.

- Obrigado.

- Então e Portugal não joga hoje?

- Joga, joga com Andorra.

- Ah, vai ser uma grande vitória.

- Nunca se sabe, nunca se sabe [digo, sabendo que não valerá a pena explicar-lhe o fado português e a tendência de Fernando Santos].

- Vai, vai. Não é preciso ser tão humilde.

 

Ele tinha razão. Portugal goleou Andorra por 6-0 mas a Estónia também não ficou muito atrás, derrotando Gibraltar por 4-0, numa noite de grande festa e um dos melhores resultados na história do futebol daquele pequeno país do Báltico.

 

O jogo – em si – não foi animador. Mas esse também não era o objetivo. Ali, praticamente no extremo europeu oposto a Portugal, vivia-se um futebol diferente. Um futebol dos pequeninos, um futebol em estado puro, sem os vícios que conhecemos e com motivos de alegria que hoje praticamente já nem conseguimos compreender.

 

É por isso que ver um Estónia-Gibraltar à noite, em outubro, numa sexta-feira em Tallinn não é necessariamente um castigo. Aliás, não é mesmo castigo nenhum. É uma experiência especial que nos faz sentir integrados no meio dos locais. Sim, podia não ter chovido. Sim, podia não ter estado um frio de rachar – sobretudo no regresso ao hotel – mas hoje, tanto tempo depois, é impossível não sorrir e pensar: «Ah, pois foi. Já vi um Estónia-Gibraltar!». Mal sabia eu que um ano e meio depois iríamos ver dois jogos do campeonato de Gibraltar consecutivos.