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atlas de bolso

travel blog

Qua | 02.01.19

Viajar é uma experiência pessoal. Ninguém o pode fazer por nós

Cada pessoa segue o seu rumo numa viagem

Os Estados Unidos não são apenas o nosso destino preferido, são também o destino que nos fez perceber da melhor forma o que éramos enquanto viajantes. Quando conheci a Sarah, ela nunca tinha ido lá. Achava que não ia gostar e só aceitou ir comigo por uma solução de compromisso.

 

Nos três anos anteriores eu tinha somado viagens diferentes, sempre com o desporto em mente. Tinha feito Los Angeles em 2010, Boston e Nova Iorque em 2011, e Chicago, Milwaukee e Indianápolis em 2012. O destino seguinte seria Washington, com a possibilidade de aproveitar a proximidade geográfica de Filadélfia para acrescentar mais um destino.

 

Foi nesta altura que a Sarah interveio. «Se vamos fazer essas duas, acrescentamos Nova Iorque». Para a Sarah, que não via grande sentido em visitar os Estados Unidos, fazia ainda menos fazê-lo sem passar por Nova Iorque. A cidade não me tinha deixado grandes recordações mas cada pessoa experiencia uma cidade de maneira diferente.

 

Se não há pessoas iguais, também não há viagens – nem destinos – iguais. Eu não tinha gostado de Nova Iorque, mas a Sarah podia gostar. Eu não tinha gostado em 2011, mas poderia gostar numa segunda vez, com ela, e fazendo outras coisas. A verdade é essa: a sensação com que saímos de uma cidade pode não passar de uma grande lotaria. Fatores como o tempo, as pessoas com as quais nos cruzamos, o sucesso da escolha do sítio onde dormir ou das atividades a fazer podem provocar um desfecho radicalmente diferente após uma viagem.

 

Conclusão? Adorámos Washington. Gostámos muito de Filadélfia. E não gostámos de Nova Iorque. Dois anos depois, quando juntámos Los Angeles e São Francisco na mesma viagem, os testemunhos que ouvimos foram todos ao encontro de uma ideia: as pessoas gostavam da segunda e perguntavam-se por que é tínhamos decidido ir à primeira. Conclusão? Confirmaram-se as teorias favoráveis a São Francisco mas também gostámos muito de Los Angeles, mesmo que não seja fácil explicar porquê. É talvez aquela cidade que melhor personifique a ideia «parece sempre pouco tempo e ficamos com a sensação de que não a aproveitámos devidamente».

 

Não me interpretem mal. É claro que as recomendações importam. Não há novo destino que escolhamos sobre o qual não tentemos reunir o máximo de informação possível, tanto na internet como junto de pessoas que conheçamos que já lá tenham estado. O que nunca fazemos é escolher, ou deixar de escolher, uma viagem por causa disso. Acontece o mesmo sempre que falamos de Nova Iorque a outras pessoas. Nós não gostámos. De todas as cidades que já visitámos nos Estados Unidos, foi a única que nos deixou sem desejo de voltar, mas nunca aconselhámos alguém a não visitar apenas por causa disso.

À espera que o sol se ponha no Griffith Observatory

Viajar não é uma ciência exata. Não há uma fórmula que deve ser seguida para aproveitar o destino ao máximo. Há quem diga que a cidade deve ser conhecida profundamente e que isso só é possível ao travar conhecimento com os locais. Mas será apropriado a quem é introvertido? Será que só os extrovertidos conseguem aproveitar devidamente uma nova cidade?

 

No papel de investigador, o viajante tanto pode ser participante como não-participante. Obviamente que cada modelo tem os seus prós e os contras mas não há uma estrada dourada para o sucesso. A viagem é uma experiência pessoal. Ninguém o pode fazer por nós. Não há nada de errado em querer estar em todos os países do mundo (ou visitar o máximo possível), em percorrer todos os estados norte-americanos – numa ou em várias roadtrips – ou acumular locais que fizeram história no século XX, se isso for o interesse de cada um.

 

Eu gosto de desporto. Penso sempre numa oportunidade para ir ver desporto, independentemente do destino, mas são os sítios históricos que me fazem parecer uma criança que acabou de ver o Pai Natal a descer a chaminé. Ter chegado à Praça Tiananmen em Pequim pela primeira vez, recordando uma das minhas primeiras memórias de sempre, ou visitado o Estádio Olímpico em Berlim, foram momentos especiais. O mesmo acontece quando vejo os locais icónicos de cada destino pela primeira vez. Ver a Torre Eiffel, o Vaticano, o sinal de Hollywood, a Grande Muralha da China, a Golden Gate, a Estátua da Liberdade ou o Central Park permite-nos, finalmente, situar na realidade algo que nos habituámos a ver desde sempre em fotografias ou filmes. Mais do que ver o sítio em si, permite-nos conhecer de facto o espaço que o rodeia. 

 

A satisfação de um viajante pode ser alcançada de inúmeras maneiras. No limite podem ser sete mil milhões. Há quem goste da comida e dos mercados, quem aprecie o conforto e a tranquilidade, quem se seduza pelo desporto e quem se renda à cultura. E nenhum está errado. Ninguém nos pode dizer que a forma como viajamos, ou preferimos viajar, está errada.

 

Viajar tem de ser algo que fazemos por nós e para nós. Termos criado um blogue até pode parecer contraditório a esta ideia, mas encarámo-lo sempre mais como um arquivo de viagens que estamos a compilar para preservação de memória. E foi também uma forma muito útil de começarmos a evitar as perguntas da praxe sempre que regressamos.

 

Há não muito tempo, a mãe da Sarah admitiu numa rede social: «Já não me dou ao trabalho de perguntar como foi a viagem, sei que uns dias depois estará no site». Parecendo que não, é um grande avanço. As viagens, como os filmes, são experiências que têm de ser maturadas e consolidadas. Responder à pergunta “Gostaste?” assim que a cortina cai é dos desafios mais injustos que podem ser colocados.

 

Este novo ano vai trazer-nos mais do mesmo: viagens. Entre os destinos que já estão confirmados, vamos atravessar o mundo para ver um Mundial, vamos fazer um cruzeiro para “descansar” e temos uma escapadela europeia para mais um evento desportivo inédito. Como sempre, o ano vai acabar por compor-se com mais viagens, mas este ponto de partida já é um excelente sinal de que não nos devemos cingir a estereótipos e modelos de viajantes.

 

«Vão fazer um cruzeiro? Não vos imagino nada», disse-me uma amiga. É mais um dos desafios que sentimos constantemente: viajar de maneira diferente e fazer coisas diferentes. Viajar na própria viagem.

 

Não têm de ser como nós. Não têm de fazer o que fazemos. Têm de descobrir o que vos faz felizes e aproveitar. Só assim uma viagem pode valer a pena. E, como diz o anúncio da NOS, ninguém alguma vez disse “Viajei demais”.